sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal fora de época

Para minha mãe.


Algumas coisas deviam ter o seu momento, o seu dia, a sua hora. Rabanada é uma delas. E isso quem diz é a minha memória. Ah, as fatias douradas no café da manhã do dia 25 de dezembro… Rabanada calórica, frita, e não light, assada. Com o seu gosto de ternuras antigas mais o cheiro fantasioso da canela, muita canela, recordávamos, em ensolarada sessão matutina, a ceia de Natal na casa da avó. Nada nos escapava. Nenhum detalhe da noite anterior, nem mesmo um suspiro. Nada.

Acreditávamos, sim, em Papai Noel, pois éramos crianças, mas não éramos muito boazinhas. Torcíamos para que na noite de Natal houvesse surpresas, ainda que a ceia fosse uma cerimônia bem preparada, como sempre é nas melhores famílias. Mas algo podia acontecer subitamente… Ansiávamos pelo inesperado. Desejávamos o insólito. Queríamos o fora do roteiro e esperávamos por ele.

No dia 24, à tarde, os primos fazíamos nossas apostas: o tio e a tia, irmãos que brigaram no veraneio, briga feia, e não mais se falaram durante o ano, vão se entender – eu aposto! Mas o outro tio, aquele, o tio não vai segurar “o social” por muito tempo; vai aprontar de novo – quer apostar? E assim fazíamos nossas apostas. Às vezes, eu ganhava. Outras, não. E também havia o erro de tio: acertávamos a cena, mas errávamos o tio! No outro dia, narrávamos os melhores momentos da ceia de Natal, e do tio.

Papai Noel vinha por um corredor longo, tão longo que parecia um túnel, e escuro porque os tios, ah! os tios apagavam as luzes da sala, corredor, copa para o bom velhinho entrar e percorrer a casa tocando os sinos, arrastando as botinas pelo assoalho e nele batendo o seu cajado… Os primos mais velhos assombravam as crianças e nós gritávamos e corríamos e nos escondíamos debaixo da mesa grande na copa, onde nos amontoávamos. Antes de Papai Noel chegar, ficávamos na varanda iluminada com os tios que faziam terrorismo com a demora do velhinho de longa barba branca – ih, Papai Noel esqueceu alguma sacola ou trocou os presentes e deve ter voltado pra recuperá-los, mas são tantas casas… Ele pode ter se perdido… E pode ser que você receba o seu presente só depois de amanhã, mas você sabe rezar o Pai Nosso, minha querida? É bom rezar! Não conseguia me lembrar do Pai Nosso, claro. Mas os primos me davam cola, sopravam trechos inteiros da oração – mal sabia eu…

Com as rabanadas, lembrava até do que não tinha acontecido. Do tio que se separou da mulher e acabou dando um tempo em algum lugar distante, desligando-se de tudo e de todos, pra quem minha avó rezava e pedia proteção redobrada; aquele por quem ela chorava pelos cantos, eu imaginava a sua volta na noite de Natal… Neste dia, eu lhe dava o rosto de Che Guevara. Imaginava-o barbado, embrenhado em alguma mata no sul da Bahia lutando por uma causa qualquer, pela liberdade, felicidade, por ele mesmo. No Natal, o tio que deixava minha avó triste, pra mim, tornava-se herói. Eu o via chegar sem ter ensaiado o encontro com a família. Ele chegava sem avisar, sem mandar um telegrama, um bilhete. E chegava com sorriso luminoso e braços abertos de revolucionário. Papai Noel era ofuscado pelo meu Che.

Devia haver safra de rabanada como há de manga ubá. Em dezembro. Mas onde foi parar o mês de dezembro?

Em outubro, já se enfeitam casas, prédios, lojas, barracas de camelô, e tem panetone. Dizem que o Natal começa mais cedo por causa do tráfego nas grandes cidades. Falam que o trânsito agarrado – como se diz em Minas – perturba o espírito natalino. É o grande vilão e também o culpado pelo sumiço do mês de dezembro. Tem gente dizendo que os engarrafamentos boicotam os abraços esquecidos, roubados e até os forçados – não dá pra exercitar o espírito natalino parado no trânsito. Não, não dá. Então, antecipa-se a confraternização. Empresas fazem amigo oculto no final de novembro e Papai Noel chega no início, ou no mais tardar, em meados do mês de novembro, para a meninada poder tirar fotos com ele. Pra dar tempo. Aliás, em matéria de tempo, Papai Noel mudou muito. Chega antes de todos e não se perde mais. Vem de helicóptero e tem GPS. Não se enganem: ele sabe tudo de logística. E o mês de dezembro… Ninguém mais o vê passar.


Viviane Campos Moreira.
Crônica publicada no Amálgama.

OBS.: para reprodução do texto em blogs, sites, portais, favor observar as normas do blog Amálgama. Favor citar os créditos como especificados no Amálgama. O Balaio da Vivi não autoriza a reprodução do texto de forma diversa ao que está regulamentado no Amálgama.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Troca de poemas


Da direita pra esquerda:
sentadas: eu e Cíntia; em pé: Fernanda e Vânia.


Alguns se encontram pra trocar presentes. Outros, poemas.
Eu, Fernanda e Vânia, colaboradoras do AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS e Cíntia, convidada, nos encontramos pra ler e trocar poemas.

Nós do AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS trocamos nossos poemas: uma escolheu um poema da outra e disse a todas por que escolheu aquele poema... E assim, em uma noite dessas, numa terça-feira de dezembro em BH, saímos de casa pra trocar poemas, com direito a surpresa no final!

Mais: Trocando poemas.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A morte pela vida





Duas passagens, uma no cinema, outra no teatro, cruzam-se na escolha pela vida, em enredos nos quais esta decisão implica um lugar fora da ordem.

Em séculos diferentes, as heroínas Laura Brown e Nora cumpriam com dedicação seus papéis de esposa e mãe quando, assombrosamente, desviam-se do rumo que percorriam, modificando para sempre suas narrativas.

Laura Brown, personagem interpretada pela atriz Julianne Moore no filme As Horas. Nora, personagem da clássica peça Casa de Bonecas do norueguês Henrik Ibsen - representada nos palcos brasileiros, nos anos 1970, por Tônia Carrero.

A personagem do filme As Horas, Laura Brown, uma dona de casa que se sentia massacrada na moldura em que o marido a engessara; no lugar em que ele a fixara. O discurso do marido resumia-se à síntese do primeiro encontro. Para Laura Brown, a incapacidade do marido em transcender suas próprias marcas e de se abrir ao mundo dela tornara-se uma fôrma sufocante. Assim, sem poder se deslocar do lugar que lhe fora dado pelo marido, Laura Brown passou a desejar a morte como saída. Arquitetou a própria morte: hospedou-se em um hotel e pediu ao mensageiro para não ser incomodada, defendendo os restos de sua privacidade. Deitou-se na cama, ao lado de vários frascos de comprimidos sobre o criado. Abriu um livro, o romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Ensaiou uma leitura. Acariciou sua barriga enorme - estava grávida. E, inopinadamente, desistiu dos seus planos.

Encerra-se a cena. A narrativa transcorre e a personagem reaparece velhinha no enterro do seu filho escritor Richard (Ed Harris) que se suicidara. A amiga dele, Clarissa (Meryl Streep), toma para si o acerto de contas do filho (seu amigo) com a mãe (o filho morreu sem rever a mãe que o abandonara quando criança) e lhe pergunta por que ela o havia abandonado. Laura Brown responde: " - É estranho sobreviver a todos mas, naquela tarde, eu escolhi a vida à morte."

Arrebatados, cedemo-nos à narrativa da heroína que naquela tarde escolhera a vida. Soberana sua escolha. Daquele momento (da cena do hotel) para frente, nada que significasse morte para a personagem faria parte da sua vida, pois, naquela tarde, ela decidira viver. A sua escolha pela vida excluía o marido, o filho, a filha. Todos estavam mortos. Ela restou viva por ter escolhido viver. A sua escolha lhe garantiu a vida.

O drama da personagem remete ao de Nora da peça Casa de Bonecas. Menos pelo teor da angústia, mais pelo desejo de viver. Nora era uma mulher belíssima com reconhecidos talentos femininos. Bem casada, seguia os rumos certos de uma época, quando se peecebe  inquieta. O seu marido a amava, tratava-a como "minha cotoviazinha", confirmando o lugar dado às mulheres naquela época. Fora do lar, Nora podia "voar" sem maiores comprometimentos com a roda da vida, pois seu marido respondia pelo seu caminhar. E, ao pousar, Nora permanecia boneca, como a educação que lhe fora dada. As alternâncias de possíveis papéis à Nora: cotovia-boneca.

No último ato, Nora arruma as malas e diz ao marido que quer ter a sua vida: "a vida de um ser humano” - de uma mulher de carne e osso - quando se depara com a impossibilidade de se reinventar no seu casamento. Para ela, a condição de cotovia-boneca tornara-se a morte. Nora desejava ser outra: ser ela mesma. E isso não era possível naquele lugar. Tudo lhe fora dito. Tudo lhe fora negado. Encerra-se a peça com a personagem batendo a porta da casa de bonecas na qual ela não se reconhece mais.

Contextos fortes, situados entre a vida e a morte, comuns na escolha: a vida, com todos os créditos e débitos existenciais, por vezes intransferíveis.

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Viviane C. Moreira.
Publicado originalmente no videbloguinho.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Show na casa do Arnaldo Antunes

O poeta e músico Arnaldo Antunes inventou moda e fez show em casa. Ele diz algo muito interessante sobre casa e lar... São coisas distintas mesmo. Às vezes, temos casa mas não temos lar.

Bom, aqui no Balaio, a casa é sua. Pode entrar sem bater, a porta está sempre aberta.

Vídeo: Show na casa do Arnaldo

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MSN 0.0


Ângela Maciel*
Foto: Miguel Aun.




para os apaixonados da rede.





sua risada/…/

minha?

seu jeito/…/

meu?

sua marquinha/…/

minha?

seu colo/…/

meu?

sua pintinha
nem à esquerda
nem à direita
bem no centro/…//…//…//…//…//…/

ahhh
sua lombar/…//…//…//…//…//…//…//…/

minha?

você/…/

eu?

você
todinha
me faz vontade/…/

eu?

você
vontade
minha
todinha/…/

eu?

você…


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Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho.

*Torno e esmaltação - queima em alta temperatura - com oxidação.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: MSN 1.0, MARCHINHA DE UMA SAFADINHA.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Para que servem os prêmios?

Com uma foto de um jabuti grande protegendo seus filhotes e com a frase "Seria mais proveitoso para todos se o jabuti fosse apenas um bicho, não um prêmio literário polêmico", João Paulo, editor de Cultura do Estado de Minas, na sua coluna Olhar, de 27/11/2010, falou que "quem gosta de prêmio é criança (...) e a tendência de transformar tudo em disputa deixou a escola básica e invadiu todos os outros setores da vida adulta. A todo momento somos lembrados de que fulano ganhou um prêmio, passou em primeiro lugar, que é mais rápido. Ou pula mais alto, come mais sanduíches. Se o objeto é diverso, o método é o mesmo: criar a distinção. Os prêmios são, dessa forma, a confirmação da infantilidade de nosso tempo."

(...)"Para não dizer que todos os prêmios são desnecessários, pode-se defender, no caso da literatura e das artes em geral, que eles sejam conferidos sempre aos jovens que iniciam e, por falta de outras formas de entrada na indústria cultural, precisam de um empurrão. Assim, seria produtivo e civilizador que todos os concursos destinassem seus recursos para permitir que autores inéditos publiquem, que cineastas estreantes filmem, que compositores jovens tenham orquestras para tocar suas peças, que dramaturgos que começam vejam seus textos montados no palco.

Dessa forma, além de tirar de homens e mulheres feitos o papelão de disputar entre colegas quem é o 'melhor', os prêmios vão contribuir para a expansão do mercado da invenção e criatividade. O maior mérito vai continuar sendo sempre o julgamento vagaroso da posteridade, com sua paciência em ler, reler, tresler e interpretar. (...)"


* * *

Comentários?

sábado, 27 de novembro de 2010

Festa de Literatura de São João del-Rei

Começou ontem a 4ª edição da Festa de Literatura de São João del-Rei (FELIT), com curadoria do poeta e jornalista Heitor Ferraz.

A homenageada é a premiada escritora carioca Ana Maria Machado, reconhecida mundialmente por suas obras de literatura infanto-juvenil. Um deles: Bisa Bia Bisa Bel, livro que lemos na infância ou na infância dos filhos, que fala sobre a relação entre uma bisneta e uma bisavó que não se conheceram. A autora de mais de 500.000 exemplares entrou para a Academia Brasileira de Letras em 2003.

Na programação de hoje, passaram por lá, entre outros, Humberto Werneck no painel A prosa de Otto Lara Resende; Regina Zilberman e Beatriz Resende no painel A literatura de Ana Maria Machado; e Bartolomeu Campos de Queirós no painel Novas Formas de Literatura Infanto-Juvenil.



* * *


No videbloguinho, meu blog de poesia, crônicas, causos, belas lorotas, onde posto recortes de minhas leituras, poemas, crônicas, entrevistas, há posts do belíssimo livro Canteiros de Saturno, no qual Ana Maria Machado aborda, com delicadeza, a nossa relação com o tempo e a beleza. No romance, há diálogos sublimes como este, entre Leonora (personagem principal) e Nico (seu amado amigo amante):
Nicolau e Leonora conversam.

OBS.: para ler mais recortes do livro Canteiros de Saturno, digite o nome da autora, Ana Maria Machado, no rodapé do blog - em Busca no videbloguinho.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Mutirão contra o câncer de pele

Dia 27 de novembro, próximo sábado, várias cidades e estados brasileiros vão estar em ação contra o câncer de pele. É o dia da Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele - câncer muito comum no Brasil, chegando a corresponder a 25% de todos os tumores malignos registrados no País. No ano passado, a campanha entrou para o livro dos recordes - Guiness - como a maior campanha médica do mundo realizada em um único dia. Neste ano, mais dois estados aderiram à campanha.

Médicos especialistas irão avaliar pacientes com suspeita de câncer de pele em postos de saúde em 25 estados. Além dos exames gratuitos, serão dadas orientações sobre fotoproteção e esclarecimentos sobre suspeita do câncer de pele.

Em Minas, além da capital, as cidades de Alfenas, Barbacena, Campina Verde, Governador Valadares, Juiz de Fora e Uberlândia participarão da campanha.

XII Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele
Data: 27/11/2010 - Horário: das 9h às 15h.

Postos de atendimento em Belo Horizonte:


Centro Metropolitano de Especialidades Médicas (antigo Cardiominas) – Clínica Dermatológica da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte.
Rua Domingos Vieira, 416, Santa Efigênia – BH.

Anexo de Dermatologia - Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da UFMG
Alameda Álvaro Celso, 55, 1º e 2º andares, Santa Efigênia – BH.
Telefone: (31) 3409 9560

Informações sobre os postos de saúde em outros estados:
Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Informações sobre os postos de saúde em Minas:
SBD-MG.

Mais aqui no Balaio:
Filtro solar sempre!

Mais sobre proteção na infância:
Artigo site SBD-MG - Filtro solar na infância.


* * *

Até o Cristo Redentor aderiu à campanha! O Cristo ficou laranja! Recebeu iluminação especial em 23 de novembro. Uma força do Cristo Redentor (Rio) para a campanha nacional de prevenção ao câncer de pele. É, minha gente!

domingo, 21 de novembro de 2010

MARCHINHA DE UMA SAFADINHA


Bernadette Santiago*
Foto: Miguel Aun.



ah
ai de mim
se eu fosse a Iasmim


eu roubava do Aladim
o gênio
para mim


ah
ai de mim
se eu fosse a Iasmim


eu teria um gênio
amante
só para mim


ai do Aladim


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Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho.

*Engobe sobre argila preta.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Poema vencedor na categoria Poema Popular da BPP6 - Dez/2008. Evento realizado pelo Grupo de Oficcina Multimédia - GOM - da Fundação de Educação Artística - BH. A BPP6 teve como tema "A mulher fala" e Simone de Beauvoir como homenageada.

Mais: MSN 1.0, post sobre a BPP7/2010; Bienal Piores Poemas 6.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Carpinejando fica mais fácil, ou não!

E ele veio a BH ontem no Sempre um Papo. Carpinejar. Falante, altivo, divertido. Sentado ao lado do Afonso Borges - mediador e coordenador do projeto - Carpinejar falou, gesticulou, tirou onda, riu, fez rir, gargalhar e... pensar.

Falou sobre o amor. Disse ele que "somos terroristas no amor, queremos terminar o tempo todo". Quando amamos o outro, passamos a admirar o defeito que tanto combatemos - aquele que quase foi o motivo para terminarmos o romance, namoro, casamento... Carpinejando: "O casal ama o defeito. Passa-se a ter vaidade pelo defeito".

Falando sobre o livro Mulher Perdigueira, ele não poupou nem mesmo quem cria histórias. O escritor pode ter ciúmes de uma personagem? Para Carpinejar, "a pior coisa é ficar com ciúme de um personagem. Isso que é dor de corno!"

E a literatura - o que é? "Gostar dificilmente do que se é!" Muitos escrevem porque não se aceitam e escrevem como refúgio para a não aceitação. Ele tenta resolver os próprios dilemas. Suas crônicas que não falam apenas do cotidiano, mas de sentimentos, vêm da aceitação. Para Carpinejar, "não há elevação que não venha do patético." Adverte: "escritor que tenta passar uma única imagem não é legal. Escritor tem que passar suas contradições".

Uma pergunta que não queria calar:

Quando você escreve, Carpinejar? Ou como você faz para escrever estando 21 dias por mês na estrada, viajando, dando palestras, entrevistas, lançando livros? Ah... Ele se concentra na dispersão e o momento da palestra, para ele, também é criação. "Crônica é conversa, não é monólogo!" "O texto nunca se faz sozinho. Faz-se no diálogo". Citou o quarteto mineiro que sabia "puxar angústia": "Fernando Sabino cutucava Paulo Mendes Campos que cutucava Otto Lara Resende que cutucava Hélio Pellegrino" - não necessariamente nesta ordem, é claro.

A leitura, Carpinejar, serve pra quê? "Suportar a solidão. A leitura organiza a própria vida. Mas a letra é o fantasma. Quem tem medo de fantasma não lê. E o maior suspense não vem do terror, mas das histórias de amor".

A escrita poética, o poeta... "A expressão poética vai trabalhar a sugestão - o deixar de dizer. O poeta é aquele que deixa de dizer. Poema se faz da intensidade, mas tem que ter a surpresa, o silêncio, o que não é dito."

Ah a pausa poética onde nos perdemos pra depois nos encontrar... Sem ela, o poema fala demais e perde bastante o seu encanto, ou todo ele. Carpinejar tem razão.

São Pedro não deu trégua. Carpinejar não deu a menor bola pra ele. Fez chuva de espuma. Esquecemos que lá fora chovia. Voltamos pra casa na chuva, carpinejando...

Viviane Campos Moreira.
Postado em Balaio da Vivi

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fórum das Letras de Ouro Preto

Terminou ontem a 6ª edição do Fórum das Letras com curadoria de Guiomar de Grammont. Segundo as notícias*, o evento realizado pela Universidade Federal de Ouro Preto(Ufop) confirma-se como um acontecimento literário prestigiado por escritores e público. Estima-se um aumento de 50% no público presente. Estudantes de jornalismo e de letras participaram dos debates e escritores brasileiros e africanos marcaram presença nas mesas-redondas, alguns mais calorosos com o público, como o cabo-verdiano Felinto Elísio. O Fórum homenageou a África de língua portuguesa.

João Ubaldo Ribeiro*, indagado sobre o interesse no exterior pela literatura brasileira, respondeu: "Nunca escrevi um livro pensando que poderia ser traduzido, embora isso tenha ocorrido. Já perdi a ilusão em relação a isso. Nos países europeus, infelizmente, o que as pessoas ainda querem em relação ao Brasil são as coisas ditas exóticas, praia, samba, futebol. A Amazônia também está na pauta. Da tradução dos meus livros por lá, o que mais gosto é quando me pagam adiantamento."

Adélia Prado também participou de mesa-redonda ao lado do jornalista e escritor Edney Silvestre, premiado com o Jabuti 2010 pelo romance Se eu fechar os olhos agora. Adélia contou como foi o seu processo de se tornar escritora. Ela recebeu críticas e rótulos no início da carreira, mas não desistiu - para a nossa sorte. Confessou* que ainda escreve a mão e disse que "a literatura é como a vida, com afetos e experiências primárias, como comer, dormir e amar. 'Quem não aceita essa realidade não pode escrever poesia'."


*Fonte: Em Cultura, p.5, 13/11/2010; p.5, 15/11/2010, cobertura de Carlos Herculano Lopes. Estado de Minas.


Mais: Site do Fórum das Letras

sábado, 13 de novembro de 2010

O Brasil hoje para o europeu

Yves Sintomer, professor de ciência política na Universidade de Paris 8, fala, em artigo*, sobre o olhar do europeu em relação ao Brasil. Como o europeu vê o nosso País hoje em termos de democracia, território, cultura, economia, sociedade?


BEM NA FOTO


Estamos bem "na arte e arquitetura contemporânea, embora no exterior a cultura brasileira não tenha mais o mesmo fôlego expansivo que tinha nos anos 1950 ou 1960, mas a vitalidade cotidiana - nas ruas, bares, clubes - ainda tem um charme incomparável.

As mais belas praias, com frequência, são situadas em zonas pouco visitadas pelos turistas estrangeiros. Estes não são muito numerosos tendo em vista as dimensões do país. O turismo verde brasileiro, que vem se desenvolvendo, permanece ignorado na Europa. A beleza física das pessoas continua impressionante, ainda que o visitante estrangeiro veja a proporção de indivíduos com excesso de peso aumentar, ano após ano, desestabilizando parte da mítica estética. A capacidade de sedução dos dois sexos, no entanto, parece intacta, e a mestiçagem segue desdobrando suas cores cintilantes.

A voz do Brasil hoje é respeitada no mundo. Quase todos os europeus conhecem o nome de Lula, enquanto poucos saberiam dizer quem é o presidente do México. O País está prestes a se impor como uma das potências do século 21. Não somente o crescimento econômico é impressionante, como ele faz com que milhões de pessoas saiam da pobreza. É animador ver que esse 'novo' ator global esteja resolvendo alguns dos seus problemas essenciais, oferecendo um exemplo para o resto do mundo.

A democracia brasileira é sem dúvida estável. O PSDB e o PT são verdadeiros partidos, com uma ideologia, uma estrutura organizacional, um programa mais ou menos definido, pessoas competentes nos seus quadros dirigentes etc.

A imprensa, embora com frequência orientada à direita, é livre e de boa qualidade.

A sociedade civil é ativa e diversificada. A partir dela, por exemplo, foi inventado o Orçamento Participativo, instrumento de gestão pública que se espalhou para o resto do mundo, deixando claro ser possível inverter o caminho das inovações políticas, que geralmente seguem do Norte para o Sul. O Fórum Social Mundial e o movimento altermundialista, que marcaram a agenda internacional, também nasceram nas cidades brasileiras.

No plano social, a última década marcou um limiar considerável. Agora é mais legítimo reivindicar um salário mínimo que garanta uma renda decente, um Estado que assegure educação e um sistema de saúde de qualidade, uma condenação às discriminações culturais etc. As bases simbólicas e materiais do Estado social começam a ser impostas, e esse desenvolvimento oferece um ponto de apoio contra aqueles que pensam que crescimento econômico rima com capitalismo selvagem.

A chegada do filho de uma família pobre à liderança da oitava potência econômica mundial é um símbolo marcante, assim como a eleição de Obama nos Estados Unidos. Outras potências ascendentes, a começar pela China, apoiam-se num sistema político autoritário. Desse ponto de vista, o Brasil oferece uma alternativa exemplar."



MAL NA FOTO



Não estamos nada bem na desigualdade social. "As diferenças de renda são absurdas. O luxo aparece mais do que no Velho Continente. E a miséria também, sobretudo nas ruas. O choque é ainda maior pelo fato de, no Sul e no Sudeste, o nível de riqueza estar se aproximando do da Europa do Sul. Não há dúvidas de que as despesas com saúde e educação, inacessíveis para os mais pobres, são consideradas um descompasso aos olhos daqueles cujos filhos puderam se beneficiar - da maternidade à vida adulta: da escola primária à universidade - de um serviço público de qualidade. A França ou a Alemanha também têm seus guetos de ricos, mas as classes médias não têm necessidade de se fechar em condomínios, clubes privados ou edifícios protegidos por cercas e vigias para viver em tranquilidade, em face de favelas e bairros populares onde seria perigoso colocar os pés. O desenvolvimento espacial separado das diferentes classes sociais é sintomático de um mal profundo. Ele contraria não somente o senso de justiça, mas também o bem-estar daquilo que é uma vida admirável.

Além disso, essas desigualdades e esse separatismo socioespacial são ligados à insegurança - infinitamente maior do que na Europa - que pesa sobre a vida diária de todos, e não somente no que se refere aos habitantes das favelas, embora estes sejam os mais atingidos.

Isso choca ainda mais pelo fato de haver uma relação entre as desigualdades de etnia e as de classe. Por quase toda parte, os negros são maioria entre os que efetuam os trabalhos mais penosos e menos remunerados, além de serem sub-representados nos quadros do poder, de prestígio e de riqueza - com exceção da música e do futebol. É verdade que conhecemos isso no Velho Continente, sendo que os recentes episódios 'racistas' do governo francês me enchem de vergonha. Mas nenhum dos meus amigos ou colegas europeus, no dia a dia, tem uma empregada em casa. E essa amplitude residual da domesticidade - negra, na maioria das vezes - não é um traço que projeta o Brasil para o futuro."


*Trechos do artigo E agora Brasil? de Yves Sintomer com tradução de André Rubião publicado em PensarBrasil, p. 10-11, 13/11/2010, Estado de Minas.


* * *


Comentários?

Enem 2010: valendo...

Estudantes comemoraram ontem o fim da suspensão do Enem 2010. O MEC também.

O desembargador Luiz Alberto Gurgel de Faria do Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região* derrubou a liminar concedida pela Justiça Federal do Ceará que, como efeito, suspendeu o Enem 2010 na segunda-feira passada. Gurgel de Faria aceitou o recurso da Advocacia-Geral da União (AGU), a pedido do Ministério da Educação (MEC). De acordo com o desembargador, "o transtorno para os estudantes e prejuízo para os cofres públicos - calculado em R$ 180 milhões -, caso nova avaliação fosse aplicada a todos os candidatos, não justificaria a paralisação do processo seletivo. Isso porque as falhas nas provas comprometeram um universo de apenas 0,05% dos que fizeram o exame nos cadernos de cor amarela com questões duplicadas, e a alteração no cronograma do Enem atrapalharia vestibulares de diversas instituições."

Com a queda da liminar, o gabarito das provas pode ser divulgado e ficou valendo a determinação para que cerca de 2 mil candidatos da prova amarela, com questões repetidas, refaçam o exame, e os prejudicados pelos erros nos cabeçalhos da folha de respostas poderão pedir correção especial.

Segundo a notícia, o "MEC estimava que 10% dos 3,3 milhões de alunos não teriam conseguido trocar os cadernos com problemas. Mas os dados levantados até agora mostram que o número é bem menor. Até o momento menos de 200 ocorrências foram identificadas, em cinco estados: Minas Gerais, Pernambuco, Sergipe, Paraná, Santa Catarina e no Distrito Federal.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) no Ceará anunciaram que vão recorrer da decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região.

*Fonte: Estado de Minas, Caderno Gerais, p. 21.

Mais: Gabarito Enem 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Bienal dos Piores Poemas 7




Rolando, desde 7 de novembro, inscrições de poemas para a BPP7 com o tema BIENAL SOBRENATURAL, retratando o universo imaginário, místico, fantasmagórico, misterioso, mágico e extraterreno. A Bienal dos Piores Poemas é um evento realizado pelo Grupo de Oficcina Multimédia - GOM - da Fundação de Educação Artística. As inscrições encerram-se no dia 7 de dezembro.

Participei da BPP6 que teve como homenageada a escritora e filósofa Simone de Beauvoir. O tema foi "A mulher fala". Postei alguns poemas inscritos na BPP6 aqui: Lusco-fusco; Morango com chantili, suspiro e rum; Fissura e Vexame. Fui vencedora na categoria poema popular - votação pela internet - com o poema Marchinha de uma safadinha que postarei aqui. Estou devendo este!

Para participar, envie o(s) poema(s) para o e-mail bienaldospiorespoemas@gmail.com, com seu pseudônimo, nome completo, e-mail e telefone para contato.

Mais: Blog da BPP7

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Fazendo planos com Valentin

Valentin era um garoto de 8 anos, filho de pais ausentes, criado pela avó, uma viúva. Era estrábico, tinha uma imaginação muito rica e aprendeu com o estrabismo a ver o mundo de outro ângulo. Era uma criança muito esperta. Queria ser astronauta, mas sabia que seria impossível realizar seu sonho porque ele era de uma família humilde - a avó não tinha dinheiro e o pai dele, que aparecia de vez em quando pra vê-los, não lhes dava dinheiro suficientemente. Eles não passavam fome, mas também não sabiam o que era fartura. Valentin inventava brinquedos. Imaginava, fantasiava, brincava. Fazia planos. Às vezes, lamentava: "Tudo podia ser tão diferente..." Desejava que sua mãe o visitasse, pelo menos uma única vez... Ele percebe que a avó estava doente e pressente que ficaria só no mundo e precisaria mais ainda de uma mãe, um pai, uma família... Valentin tem um plano: unir seus dois amigos adultos: Letícia, a ex-namorada do pai que se tornou sua amiga, e Rufo, seu vizinho músico; seu melhor amigo.

Mostre-nos seu plano, Valentin!

Vídeo: Cena do filme Valentin

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Enem 2010: DPU pede anulação

Hoje, a Defensoria Pública da União (DPU) recomendou ao Ministério da Educação (MEC) a anulação das provas do Enem. Caso a recomendação não seja atendida, poderá ser ajuizada contra o MEC ação civil pública.

Os estudantes que se sentirem prejudicados poderão entrar em contato com a DPU pelo e-mail: enem2010@dpu.gov.br. Deverão informar: o nome, o local onde fizeram as provas, as informações recebidas pelos fiscais, e relatar as falhas.

Mais: site DPU

OAB e MPF de olho no Enem 2010

A Ordem dos Advogados do Brasil e o Ministério Público Federal* reagiram aos erros do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) realizado no fim de semana, levantando "a possibilidade de pedir a anulação do teste". Segundo nota do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), órgão responsável pela avaliação, novo teste poderá ser realizado, em último caso, somente para os candidatos das provas amarelas que fizeram prova no sábado - no caderno amarelo das provas havia erros de impressão e questões duplicadas.

"Além da confusão no caderno de provas de cor amarela, em BH, um estudante foi detido sob a suspeita de fotografar partes da prova e publicar as imagens na internet. Segundo a Polícia Federal, o jovem alegou que teria feito uma 'pegadinha' para ridicularizar o concurso. (...) Em Pernambuco, um jornalista enviou de dentro do banheiro mensagens de celular revelando o tema da redação. O Ministério da Educação informou que o repórter será processado por cometer ato ilícito."

De acordo com a nota no jornal sobre o Enem 2010, "havia segurança de menos - como os documentos dos candidatos só eram checados dentro da sala onde os exames seriam feitos, era possível a uma pessoa estranha chegar bem perto sem que ninguém lhe perguntasse o que fazia ali."

*Fonte: Estado de Minas, Caderno Gerais, p. 17 e p.19, 8/11/2010.


* * *


Estudantes que fizeram provas em BH criticaram a fiscalização. Não havia sistema de detecção de metais. Segundo uma estudante, "os banheiros estavam liberados" - sem fiscais.

O Enem possibilita a entrada em universidades, incluindo a UFMG, e também funciona como supletivo - a nota do Enem tem eficácia para validar a conclusão do ensino médio.

Todos devemos ficar de olho, ou não?

domingo, 7 de novembro de 2010

Carpinejar em BH

Fabrício Carpinejar estará em BH no dia 16 de novembro para o lançamento do livro Mulher Perdigueira. O poeta, cronista, blogueiro e tuiteiro foi premiado com o Jabuti pelo livro de crônicas Canalha! Carpinejar também é famoso por suas frases.

Diz aí, Fabro: "A mentira é a sala de estar da verdade. Minha mentira não tem competência para permanecer. Ela apenas guarda lugar. Não me falsifico, eu me rascunho. Sei que a verdade não existe, existe a generosidade de ouvir o contraponto."

Local: Palácio das Artes, sala Juvenal Dias às 19h30. Entrada franca.

Mais: Sempre um Papo

Eu fui! Se quiser dar uma olhadinha, ou mais de uma... Link: Carpinejando fica mais fácil, ou não!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MSN 1.0


Neide Gruberger*
Foto: Miguel Aun.


para as apaixonadas da rede.


você

eu?

sim
você

eu?

você
sim
eu quero

eu?

você
eu quero
sim
ardente

eu?

sim
você
eu quero
todo
ardente

eu?

você
eu quero
sim

eu?

sim
você
eu quero
ardente
todo amor
em mim

eu?

você?

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Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho

*Torno com esmaltação - queima em alta temperatura com óxidos. Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: MSN 0.0, LUSCO-FUSCO.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Filtro solar sempre!

Dia 27 de novembro é o dia da campanha nacional contra o câncer de pele. Câncer que atinge um número cada vez maior de brasileiros. Há estimativas de 8.730 novos casos da doença em Minas*, quase 24 por dia, e de 119.780 no País, de acordo com a projeção do Instituto Nacional do Câncer (Inca). A estimativa do Inca engloba os 3 tipos de câncer de pele: o carcinoma basocelular, que corresponde a 70% dos tumores; o carcinoma espinocelular, o segundo mais comum: 25% dos casos; e o melanoma, o menos frequente, porém, mais grave.

*Fonte: Estado de Minas, Caderno Gerais, p. 23, 18/9/10.

* * *

Como descobrir o câncer de pele?

Observe sempre sua pele, sobretudo a partir dos 35 anos de idade. Veja se há alguma "novidade": uma feridinha que não cicatriza, uma verruga com aspecto estranho, uma pinta com cor e contornos modificados. Não entre em pânico, e vá ao dermatologista para ele fazer uma avaliação. Na hipótese de carcinoma basocelular, há tratamentos menos invasivos que podem até dispensar cirurgia, como a terapia fotodinâmica - um tratamento rápido, com luz vermelha e sessão que dura de 10 a 15 minutos. Umas 3 horas antes da sessão, aplica-se sobre a lesão uma pomada e faz-se um curativo. Após as 3 horas, o paciente é submetido à sessão de luz vermelha e, sob o seu efeito, o medicamento "frita" as células cancerosas. Não há incômodo na maioria dos casos; só um calor suportável. A vantagem da terapia fotodinâmica é que há cura, sem precisar de cirurgia pra remover o tumor. A desvantagem é o custo, ainda é um tratamento caro e os planos de saúde não o cobrem. Em Belo Horizonte, há clínicas de dermatologia que oferecem o tratamento com preços a partir de R$ 400,00 a sessão.

A melhor forma de se proteger?

Use e abuse do filtro solar em todas as fases da vida.

Mais: Campanha 2010

OBS.: para acessar o portal da Sociedade Brasileira de Dermatologia, clique no link acima, sob Campanha 2010. No portal, há um link que dá acesso à relação dos postos de atendimento nas cidades que participarão da campanha.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Lembrete das urnas

O que nos diz o resultado do 2º turno? Os partidos, políticos e militantes que apoiaram o governo e a oposição já devem ter feito esta reflexão algumas dezenas de vezes - uma pergunta que nos inclui, enquanto eleitores. O que as urnas nos dizem? Não foi uma goleada, não, não foi. Dilma não levou esta com uma margem larga de vantagem, mas Serra ficou em franca desvantagem nas regiões Norte e Nordeste. Em Minas, onde, supostamente, ele diminuiria bastante a diferença de votos da Dilma, não foi bem assim, nem contando com a força do Aécio.

As razões certamente são muitas para esse resultado, mas talvez o recado das urnas anuncie uma fase de afirmação da nossa jovem democracia, uma menina, embora marcada pelos mesmos vícios de sempre na política. Talvez, agora, estejamos mais calejados e também cansados do conforto do hábito de não saber de política nem se interessar por ela. Pode ser que sim... E também pode ser que parte da nossa história política tenha começado a fazer sentido.

A internet, nestas eleições, foi usada como meio de se fazer política à moda antiga. Por ser um território supostamente sem lei? Uma terra de ninguém, com acesso permitido a todos, independentemente de classe, cor, sexo? A casa-da-mãe-joana? Nela qualquer um pode entrar e se comunicar. Por isso, supostamente, qualquer um pode plantar falsas informações, caluniar e difamar. E por ser um território sem lei, calúnia deixa de ser calúnia; difamação deixa de ser difamação? Por ser uma terra de ninguém, supostamente, a comunicação é feita por ninguém, portanto, a informação não tem credibilidade alguma e assim o que é falso não é falso, o que é verdadeiro não é verdadeiro e informações falsas podem se tornar verdades absolutas.

Ah, não foi assim. O uso equivocado da internet nos mostrou que a democracia não é um desejo virtual, mas uma vontade do povo, de gente que tem cara, feita de carne e osso, como eu e você: gente como a gente. Talvez seja este o primeiro recado das urnas. Outros virão. Todavia, a história não perdoa.

Viviane Campos Moreira.
Postado em Balaio da Vivi.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Inteligente e brega - ser ou não ser?

“Bancar inteligente é brega!” Educadores na Inglaterra vêm evitando o uso da palavra clever – inteligente. Os melhores alunos, os CDFs, são vítimas de bullying*. Muitos alunos, agraciados com prêmios escolares, recusam-se a recebê-los “por medo de serem ridicularizados pelos colegas”.

Segundo Simon Smith, professor da Essex, “entre os estudantes de hoje, ser inteligente simplesmente não está mais na moda. (...) Ser inteligente significa, sobretudo, ser chato, possuir uma personalidade sem graça, ser o queridinho dos professores. (...)”

Como relata Ann Nuckley, administradora escolar em Southwark (região sudeste de Londres), “muitos estudantes preferem adotar como modelo as celebridades do momento, aqueles personagens que transitam pelas revistas de fofoca social, ou as que analisam nos mínimos detalhes a gloriosa existência do último garotão que, da noite para o dia, saiu do anonimato para a luz do estrelato, graças a um papel na novela da televisão”.

*Fonte: revista Planeta, edição 457, outubro 2010, p. 34-35.


* * *

Lembro-me de ter ouvido uma vez - faz tempo isso... se a minha memória não falha - Joelmir Beting dizer que não conhecia nenhum CDF que teria se arrependido de sê-lo.

De acordo com a matéria, baseada nas relações entre estudantes ingleses, ser reconhecido como inteligente hoje não é nada confortável. Envergonha, pode ser muito estressante e perigoso. Fico me perguntando, no entanto, onde foi parar o invejável humor inglês?

Levando em conta os efeitos da padronização no mundo fundado na cultura da imagem, ser CDF hoje pode ser algo mesmo desconcertante – uma posição fora do foco das lentes do espetáculo. Seriam os CDFs “os desajustados” do momento? Longe dos holofotes, porém, e chamuscados pelo brilho da inteligência, eles se escondem. Mas que falta faz o humor subversivo na contemporaneidade!

E você? Conhece algum CDF arrependido? Ou algum ex-CDF “feliz”?

*Sobre Bullying: Zoar tem limite!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cartilha sobre Bullying

Judiciário e escolas unidos no combate ao bullying*. A cartilha foi lançada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). São 16 páginas com orientações destinadas a pais, alunos e professores. Serão distribuídos 46 mil exemplares a escolas públicas e particulares e órgãos da Justiça em todo o País.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (Mentes Inquietas; Mentes perigosas; Bullying:mentes perigosas nas escolas) é autora do texto da cartilha. Ela traça os perfis das vítimas e dos agressores (os bullies).

De acordo com a cartilha, o bullying pode começar em casa com a falta de uma boa educação. Em outras palavras, com a falta de limites. É preciso saber ensinar ao filho sobretudo o que é brincadeira e o que não é. Esta é mesmo uma questão que envolve os pais.

*Fonte: Estado de Minas, Gerais, p. 21, 25/10/2010.

Cartilha Bullying 2010: acesse.


* * *

O bullying também foi objeto de campanha nos EUA. Obama participou de um vídeo que orienta as vítimas de bullying a procurar ajuda, pra que elas não se isolem ainda mais; o que tem provocado baixo rendimento escolar. Entre as vítimas de bullying, destacam-se os gays.

Mais sobre bullying: aqui e aqui.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Reforma da Lei Seca

Juristas* destacam a urgência da reforma da Lei n. 11.705 de 19 de junho de 2008, a Lei Seca.

“A 6ª Turma do STJ decidiu arquivar uma ação penal contra um motorista de São Paulo flagrado na contramão e com sintomas de embriaguez. Abordado pela Polícia Militar, ele se recusou a se submeter ao exame de sangue, amparado no princípio constitucional segundo o qual ninguém é obrigado a produzir prova contra si. Diante da recusa, o condutor foi autuado pelo militar, com base nos sintomas de que dirigia alcoolizado.” “Os julgadores deram razão ao infrator: os ministros do STJ entenderam que a embriaguez deve ser comprovada mediante teste de bafômetro ou exame de sangue”. Na falta destes meios de prova, resta prejudicada a comprovação da embriaguez e, consequentemente, a culpabilidade. O acusado não responde penalmente, embora sofra outras sanções.

Para o presidente da OAB-MG, Luís Cláudio Chaves, a saída estaria na reforma da legislação no tocante aos meios de prova, pois a Lei Seca “adotou o chamado critério objetivo, que exige provas periciais para a punição”. Segundo Luís Cláudio, outros meios de prova deveriam ser admitidos, como filmagens e prova testemunhal para a comprovação do estado de embriaguez do condutor do veículo.


*Fonte: Estado de Minas, p. 21, 16/10/2010.


* * *


Esta questão não é nova. Desde o advento do Código Nacional de Trânsito, instituído pela Lei n. 9.503 de 23 de setembro de 1997, juristas, como Paulo Rangel, apontam “o vício de inconstitucionalidade” do art. 277 do CTN que exige que o condutor do veículo, suspeito de embriaguez, submeta-se ao teste do bafômetro. Tal imposição fere o princípio da presunção de inocência (art. 5º, inciso LVII da CRFB) que "reafirma", com status de garantia constitucional, a quem cabe o ônus da prova. O acusado não deve e não tem que constituir prova contra si, pois, no processo penal, o ônus de provar o que se alega é da acusação. Segundo Paulo Rangel, no CTN, ao contrário do que prevê a Constituição da República, como garantia fundamental do acusado à não autoincriminação, “o ônus da prova é do condutor do veículo e não do Estado”. (RANGEL, 2001).


Mais:Artigo sobre a Lei Seca

terça-feira, 19 de outubro de 2010

LUSCO-FUSCO


Hara Cerâmica*
Foto: Miguel Aun.



perdida na saliva
do seu beijo
gozado

caí
no engano
do seu encanto

não
no conto
do vigário

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Viviane Campos Moreira.
Poema inscrito na BPP6.
Evento realizado pelo GOM
Grupo de Oficcina Multimédia - BH (MG)

*Raku. Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: MENSAGEM PARA BARTHES.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Calhordas anônimos


Jaguar em Livro de Versos do Rubem Braga.



Quem são eles? Quem entra no clube? E quem dele não sai nem mesmo morto?

Os calhordas anônimos são uma categoria nova de calhordas. Em época de campanha eleitoral, eles plantam na web informações sem fonte nem autoria, e-mails estranhos, com recortes e montagens e xingamentos porque eles ainda não sabem que a comunicação na internet está à frente da falta de educação deles. Sim, eles ainda conseguem muita coisa com o jeitão anárquico da internet, mas se enganam com a comunicação que vem sendo feita nas mídias sociais por meio de produtores de informação que não pertencem ao clube. Os calhordas sempre cometem o mesmo erro: subestimam quem está fora do clube. Isso mesmo, os calhordas anônimos não levam em conta que hoje estamos na era da produção de informação: o consumidor passivo de informação está em extinção e duvido muito que a espécie queira ser preservada. Aquele consumidor passivo que só recebia a informação sem manifestar sua opinião está acabando – restam alguns, no entanto, que são alvos dos calhordas anônimos, pois na internet “democrática” tem lugar pra todos. Cuidado, portanto, com eles, os calhordas anônimos.

Curioso que há uma descrição dos calhordas que permanece bem atual. Rubem Braga traçou um perfil maravilhoso. É um poema de 1953 que se encontra no livro de poesia do Rubem Braga - que era cronista e fazia poesia em prosa. Tenho o exemplar de Livro de Versos , edição em comemoração aos 80 anos do Braga, com prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna e ilustrações de Scliar e Jaguar. O meu foi comprado em sebo, e mesmo amando vocês, não o empresto. Salve, Braga!


* * *


ODE AOS CALHORDAS


Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices – nunca fazem nada.

Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
“O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais.”

Os calhordas não morrem – não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: “Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem.”

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dançando com a Goldie e o Woody

Um homem e uma mulher, que foram casados, continuaram muito amigos, além de um fazer parte da vida do outro. O afeto não se perdeu entre eles e foi passado pra frente. O ex-marido permaneceu na nova família da ex-mulher. Todos vão passar o Natal em Paris e em um momento de uma grande festa parisiense, ela, conversando com ele, lembra de momentos deles em Paris, décadas atrás... Então, ela propõe a ele fugir da festa pra dar uma volta pela cidade. Ele a leva a um lugar exuberante e lá eles relembram uma canção... A canção: I'm thru with love.

Ohhh, tudo isso nas margens do Sena!

Vídeo: Cena de Todos dizem eu te amo

OBS.: para acessar o vídeo, clique no link acima, sob Cena de Todos dizem eu te amo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sexualidade formal?

Oscar Wilde, crítico do puritanismo da sociedade vitoriana e provocador, dizia que a felicidade de um homem casado dependia das mulheres com as quais não se casou. Quando os próprios homens fizeram coro com os Rolling Stones em Let’s spend the night together, em 1967, uma outra mulher foi cantada.

- Não podemos passar a noite juntos? Não somos capazes de sustentar nosso desejo? Que liberdade é essa?

Mais ou menos assim, os homens ficaram ao lado da Nova Mulher, e uma outra cultura foi inscrita sobre os escombros de uma sociedade em que os homens exercitavam o direito ao prazer sem confrontos com a igualdade, dentro ou fora do casamento.

Rompidos os pactos com a opressão da cultura patriarcal, as mulheres tornaram-se responsáveis pelo destino da sua sexualidade. Novos tempos para homens e mulheres com direito igual ao prazer. Hoje, “vamos passar a noite juntos” pode ser o convite de um homem para uma mulher ou de uma mulher para um homem só por uma noite, ou não.

Mas o que pretendiam aqueles rapazes e moças bem-intencionados?

Sem os rígidos padrões e os velhos costumes, estaríamos bem resolvidos. Acreditava-se que a liberdade sexual era para ser vivida. Temia-se que a revolução sexual pudesse se tornar mais uma ideia vazia, como tantas outras… "É proibido proibir, tudo é permitido!” foi o slogan ideológico das gerações de 68.

Falou-se sobre sexo. Mitos foram debatidos. Não muito tempo atrás, as mulheres (mães desses rapazes e moças) não tinham espaço para falar de sexo, a não ser nos consultórios médicos. A sexualidade foi para a esfera política. E a política no lugar da repressão sexual mudou o cenário da sexualidade no mundo. O prazer desvinculou-se da culpa.

De lá para cá, o espaço da política foi surpreendentemente afetado por outros interesses. A aversão dos revolucionários a proibições relacionadas com a sexualidade, de certa forma, abriu caminho para uma perigosa permissividade no espaço dos debates.

Em entrevista a Maria da Paz Trefaut (Revista República n. 22), Jean-Claude Guillebaud, jornalista, ensaísta e pensador francês que participou dos movimentos de 68, disse que as conquistas na sexualidade foram apropriadas pela sociedade de consumo e desviadas pela lógica do mercado. E sobre a liberdade sexual, sentenciou: “Hoje, em termos sexuais, tudo é permitido e tudo é pago. Só há uma coisa proibida: a gratuidade. É uma derrota formidável. Nossas conquistas foram recuperadas, recicladas e instrumentalizadas pela sociedade do dinheiro. O sexo se tornou mercadoria."

Não é difícil enxergar as mudanças na sexualidade. Em espaços variados, a perfeição emoldura o espetáculo da vida de sucessos. Ficar bem na foto tornou-se uma exigência sem fronteiras no jogo da sedução narcísica. Da escola ao condomínio, da balada ao MSN, da sala de estar ao quarto, ninguém escapa dos apelos da forma bem-sucedida: nem crianças nem velhos. Todos somos público-alvo de um ordenamento compulsivo de vida em que tudo tem que funcionar sem falhas - nada pode faltar.

Hoje, os estilos de vida e o enredo dos encontros são marcados ou definidos, forçosamente, por padrões industriais e midiáticos de beleza e popularidade. Símbolos, modelos, agentes e cartilhas do ideal narcisista de felicidade entraram na tessitura do encontro amoroso e na vida de todos - homens e mulheres. Teria o prazer se moldado aos clichês do imaginário pré-fabricado pelo esteticamente correto ou pela última tendência repaginada da moda?

Ecos de 68 parecem nos dizer que entre corpos e mentes o enlace erótico nem tanto se faz ou pouco se faz com a matéria que nos pertence. O que é mesmo nosso nas nossas fantasias? O que nos traz o encanto do outro? O que nos encanta no encantamento do outro?

No momento em que o gosto pelo artifício sobrepuja o gosto pelo espontâneo, assumir o que nos pertence ou o que deveria nos pertencer na vida privada bombardeada de imagens e fetiches importados pode vir a ser um meio de sobrevivência do sujeito, do indivíduo, do corpo desejantes.

Quando a turma de rapazes e moças foi para as ruas nos anos 1960/1970 reivindicar liberdade sexual, a liberdade ficava em primeiro lugar. Se o amor roubasse a cena, tudo bem - eles queriam liberdade. Liberdade para criar e recriar a musicalidade própria do encontro amoroso. Liberdade que duas pessoas poderiam suportar. Liberdade.

*Texto em homenagem ao Grupo de Estudos coordenado pela psicanalista Inez Lemos, em Belo Horizonte.


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Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho
Publicado na revista Mucury n. 9


(OBS.: no texto, para abrir a letra da canção dos Stones, clique no link, sob Let's spend the night together, em negrito e itálico. Para abrir as páginas dos recortes do livro de Marilyn Yalom sobre as mudanças na sexualidade feminina, clique nos links, sob Nova mulher, Novos tempos, direito igual - em negrito e itálico.)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MENSAGEM PARA BARTHES


Leninha Latalisa*
Foto: Miguel Aun.



Sr. Roland,


o prazer é um luxo:

alguns

poucos

amantes

raríssimos

metafísicos

arteiros

sabem

gozar

o

seu

riso

o prazer tem lá seus caprichos;

bom gosto

nem tanto


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Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho

*Queima em alta temperatura - forno a gás.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: MORANGO COM CHANTILI SUSPIRO E RUM.

sábado, 2 de outubro de 2010

A dor que não se cala

Sublimação foi o tema abordado no trabalho apresentado por Ana Paula Paes de Paula em 24/9/2010 e por Eliana Rodrigues Pereira Mendes, em conferência em 25/9/2010, na XXVIII Jornada do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais sobre sexualidade e inconsciente.

Ana Paula Paes de Paula apresentou O caráter dual da sexualidade humana: da perversão à sublimação*, levantando uma questão interessante sobre a “despervertização na sublimação”. Baseando-se na teoria de Freud sobre os três desfechos da sexualidade - o recalcamento, a perversão e a sublimação - Ana Paula falou sobre a dualidade da sexualidade entre a perversão e a sublimação. Nesta "a pulsão sexual se subtrai ao recalcamento" e naquela "a pulsão sexual resiste ao recalcamento". Segundo Ana Paula, "quem sublima também transgride", mas de acordo com a Lei (simbólica). Bem diferente, portanto, da transgressão na perversão que implica a recusa da Lei do Pai (Lacan): lei simbólica que impõe a incompletude e garante o laço social. Na sublimação, o sujeito, por aceitar a incompletude, acede ao desejo, pois a incompletude "é potência que possibilita ao sujeito prosseguir na pulsão de saber e de criar". Assim, o sujeito desejante afirma sua sexualidade no prazer. Na perversão, no entanto, com a recusa da incompletude, o sujeito não se desloca do gozo para o prazer. Tal recusa confere ao perverso a ilusão de um "gozo a mais". Desse modo, ele não afirma sua sexualidade no prazer. "O perverso usa o outro como objeto de seu gozo, não o enxergando como sujeito", de acordo com Ana Paula.

Nos debates, o coordenador da mesa José Sebastião Menezes Fernandes fez uma reflexão, como se diz, da hora: “-Está faltando a falta. A dor está sendo tamponada de todas as formas. Qualquer manifestação sintomática hoje é transformada em transtorno. A ordem é: Não se angustie. Consuma!”

Eliana Rodrigues Pereira Mendes, na conferência Pulsão e Sublimação: a trajetória do conceito, possibilidades e limites, referindo-se à sublimação como “o destino mais nobre das pulsões”, mencionou a criação da artista mexicana Frida Kahlo. A obra de Frida é notadamente marcada pela dor. Frida deu cores e vida à própria dor. E dela fez arte, como podemos ver no filme Frida.

Sem entrar na discussão sobre o que é arte e o que não é - o que seria de nós se não pudéssemos simbolizar, criar artefatos da dor? O que seria do mundo, da cultura, se não tivéssemos como recriar na tela, no barro, pano, papel, palco, espaço o nosso mal-estar, as nossas fantasias?

Em Freud, pensador da cultura (2006, p.557-558), Renato Mezan, ao tratar da sublimação, toma como exemplo os intelectuais (artistas, cientistas) que possuem “capacidade de sublimação pulsional elevada, cuja produtividade (obras plásticas ou literárias, descobertas e invenções etc.) surge de uma economia psíquica específica.” “A arte e a ciência dependem da capacidade de sublimação do sujeito, isto é, da reorientação de parcelas ponderáveis de sua libido para finalidades muito distantes da satisfação direta e que não obstante proporcionem prazer.” Por isso, eles são “o mais firme substrato da cultura” porque conseguem deslocar a agressividade em um fazer que lhes dá prazer, embora esse meio de obter prazer, segundo Freud, não seja acessível a todos.

Estaria a sublimação em risco com tantas ofertas e “ferramentas” disponíveis hoje para “tamponar a dor”? A violência exarcebada nas cidades, a frequência cada vez maior de práticas perversas dentro e fora do espaço doméstico, o incremento de condutas criminosas em que a vítima, o outro (mulher, criança) é tão-somente um objeto de gozo apontam para uma sociedade afastada da sublimação?

A falta faz sim muita falta hoje. E quem perde com isso é o próprio ser humano por não se constituir incompleto, faltoso, desejante. Sem a falta, não há a poética do saber fazer. O savoir faire fica restrito a poucos. Todos perdemos no final das contas - em beleza e transcendência.


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Viviane Campos Moreira.
Postado em Balaio da Vivi

*O artigo O caráter dual da sexualidade humana: da perversão à sublimação foi publicado em Cadernos do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, nº 38 – setembro/2010.
E-mail: cpmg@cpmg.org.br

(OBS.: no texto, para acessar o trailer do filme Frida, clique no link, sob a palavra Frida em negrito e itálico.)

***

Mais: A mágica do amor na conferência de Malvine;
Lei Seca e a Lei do Pai

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Filosofia na Casa Fiat



Abaixo, trecho do release sobre o seminário, disponível no site da Casa Fiat*.

"O seminário traz à tona a questão do autoconhecimento, que ocupa séculos de história do pensamento e que, na atualidade, tornou-se uma mercadoria fácil do mercado do saber, mas sem perder importância filosófica. Hoje, se trata de devolver a questão à sua origem antes que o autoconhecimento transforme-se em autoengano. Mas é possível responder a pergunta pelo autoconhecimento? Não somos antes o fruto do desconhecimento que deseja saber? Quais as ressonâncias, quais as implicações na ação, na política, na ética, na vida estética, no cotidiano, em relação ao que podemos saber de nós mesmos? Essas e outras perguntas estarão em debate.

A abertura, no dia 4 de outubro, será conduzida pelo diretor do Sempre um Papo, Afonso Borges, quando Márcia Tiburi falará sobre o tema Saber de si – Saber de Ninguém."

*Mais: Sempre um papo 2010

Inscrições: info@sempreumpapo.com.br

Informações: (31) 3289 8900

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

MORANGO COM CHANTILI, SUSPIRO E RUM


Júlio Christophe*
Foto: Miguel Aun.



novo

desejo

louco

de amar

de novo

loucamente

sóbria


_________________________________
Viviane Campos Moreira.
Postado em videbloguinho
Poema inscrito na BPP6 - Dez/2008.
Evento realizado pelo GOM
Grupo de Oficcina Multimédia -BH(MG)

*Queima em alta temperatura -
multiargilas com engobe e óxidos.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: PEQUENOS DESACATOS.

domingo, 26 de setembro de 2010

A mágica do amor na conferência de Malvine


Foto: Geraldo Magela.


Malvine Zalcberg, psicanalista carioca, esteve em BH para a conferência Homem, mulher e a contingência do encontro no dia 25/9/2010 na XXVIII Jornada do Fórum de Psicanálise, realizada pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

“A mulher do amor”, como foi chamada por Joaquim Ferreira dos Santos (Gente Boa – O Globo), embarca na próxima quinta-feira para Paris, para o lançamento de seu livro Qu’est-ce qu’une fille attend de sa mère? (Que é que uma filha espera de sua mãe?) - que trata da relação mãe e filha - e para dar palestra na Librairie Lipsy no próximo dia 2 de outubro.

Como se dá o encontro contingente entre um homem e uma mulher?

Malvine se baseou em Lacan para abordar a contingência do encontro amoroso entre o homem e a mulher como consequência da realidade sexual que não existe. A contingência que deve ser compreendida como surpresa, enquanto não certeza. “A contingência do encontro entre dois inconscientes, dois sintomas e duas solidões. O amor é o que torna possível esse encontro contingente”.

Nos debates, Malvine fez uma reflexão sociológica sobre o amor na atualidade, considerando que “não há subjetivação fora da cultura”. Ela apontou os reflexos "da queda da figura paterna como organizador social" – a função simbólica do “pai”, que ordena os membros de uma sociedade por meio da restrição pulsional, está bastante prejudicada hoje. Lacan foi citado: “Toda sociedade tem que frear o gozo”, pois a limitação do gozo é pressuposto da cultura. É o preço que pagamos para nos tornar sujeitos da cultura.

Em uma sociedade comprometida com o gozo, e marcada pelo seu excesso, há muitas outras coisas mais importantes que o amor. Há uma urgência de gozo e compromisso com a sua agenda. Observou Malvine: “O sujeito tem que se tornar objeto de gozo.” A surpresa e sobretudo os riscos do amor não são desejáveis. Há uma preferência pelo amor seguro - pela segurança e conforto que o “amor” pode dar - pelo amor que não ameaça a ordem do gozo.

Nesse cenário de pouca alteridade, de pouca abertura para o outro que traz a diferença, “o amor está ameaçado, embora ele seja fundamental para ‘barrar’ o gozo.” Para Malvine, “o amor é para ser reinventado. É preciso ir contra a segurança e o conforto, e suportar seus riscos.”


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Viviane Campos Moreira.
Postado em Balaio da Vivi

(OBS.: no texto, para acessar o site da Malvine, clique no link, sob Malvine Zalcberg em negrito.)

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Mais: A trama do amor entre o homem e a mulher

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Luz que não se apaga





Iris, filme estrelado por Kate Winslet e Judi Dench, baseado no livro de John Bayley sobre a escritora irlandesa Iris Murdoch, acometida pelo mal de Alzheimer. Uma história de amor à vida farta de afeto.

Iris convida-nos a navegar na força reluzente do seu pensamento, na sua criação e nos seus tormentos; no fulgor incandescente da sua mente.

A narrativa de liberdade, amor, desejo foi vivida com John Bayley, para quem ela disse: "É só ficar ao meu lado e tudo ficará bem!" E ao lado dela ele esteve até o último momento possível. Desejo, amor, liberdade e cuidado, ao lado de John Bayley.

Conheceram-se num encontro informal de um grupo de amigos reunidos em torno de uma mesa:

"- Claro que é questionável descrever os sentimentos. Por mais que se tenha cuidado, assim que se começa a definir um sentimento, a linguagem o trai. Não bastam palavras para dizer a verdade. Quase tudo, exceto coisas como 'passe o molho', é uma espécie de mentira. Sendo assim, vou me calar: - Ah, passe o molho." Enquanto Iris se rende às traquinagens da linguagem, um homem se apaixona pela oradora.

O que ela teria além da beleza? Dos olhos azuis fulgurantes? Do corpo com as medidas da juventude? Quais seriam os mistérios da sua mente? Do mundo dela? Teria sido esse o despertar amoroso de John Bayley?

Um homem seduzido? Encantado. Entregue ao sabor do ritmo do Tcha-Tcha-Tcha: moviam-se ombros, braços, mãos, cabeça, e a graça do feminino acendia-se ao parceiro. Em delicados trejeitos, o feminino se revelava ao outro, a beleza era posta em movimento e o sorriso provinha de um sentimento de felicidade - fugaz, mas real.

Iris faz sua escolha: John Bayley. "Eu te quero, John Bayley!" Um homem e uma mulher se enamoram... O homem tomado de desejo pela oradora alcança o amor e o seu destino: ao lado dela. Cúmplices na linguagem, na vida, tornam-se amigos, amantes.

Eles não eram pessoas comuns, mas outsiders num momento infeliz em que a humanidade se distanciou do pensar. Um homem e uma mulher acostumados a viver no reino das palavras: “Sem as palavras, como iríamos pensar?” – indaga Iris.

Ao sentir a presença da doença, Iris argumenta com seu fiel interlocutor: "Todos temos medo de enlouquecer. (...) Quais de nós têm mente saudável?" A doença foi enfrentada como o único mal invencível na sua trajetória. A palavra era o território de Iris. O pensamento, a razão da sua vida. A partilha, um exercício de alegria. O afeto, sua existência luminosa na memória do outro.

Para uma plateia de gente bem-educada, convidada a falar sobre educação, a filósofa Iris, então autora de 26 romances, diz:

"- A educação não traz felicidade e nem sequer liberdade. Não nos tornamos felizes porque somos livres. (...) Mas a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Abre nossos olhos e ouvidos. Conta-nos onde se escondem os prazeres. Convence-nos de que só existe uma liberdade: a da mente. E nos dá a segurança, a confiança para trilhar o caminho da mente, que nossa mente educada proporciona."

Em um momento comezinho da dupla, John Bayley, então maduro professor de literatura, lamenta: "A única linguagem que se entende hoje é a imagem. Faça o retrato!" Iris retruca: "Amor é a única língua que todos entendem".

E uma senhora encantadora discursa sobre o amor:

"- Os seres humanos se amam: no sexo, na amizade, e quando estão apaixonados. E eles cuidam de outros seres: humanos, animais, plantas e até mesmo pedras. A busca e a manutenção da felicidade estão em tudo isso e no poder da nossa imaginação. Toda alma humana assume talvez mesmo antes do nascimento formas puras, tais como: justiça, moderação, beleza e todas as qualidades morais de que nos honramos. Somos levados em direção ao bem, pela vaga lembrança dessas formas simples, tranquilas, abençoadas, as quais vimos uma vez em uma luz límpida e clara, sendo nós mesmos puros."

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Viviane Campos Moreira
Postado no videbloguinho

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tango com Al Pacino

Uma mulher à espera de alguém que não chega. Um homem sente o seu perfume... Imagina como deve ser essa mulher... Ele e um rapaz se aproximam dela. Ele se apresenta. Apresenta o rapaz. Eles se sentam à mesa dela. Quando ela tenta resistir, insistindo em dizer que estava à espera de alguém que poderia chegar a qualquer instante, ele lhe diz: "Algumas pessoas vivem uma vida em um minuto" - uma promessa do que estava por vir. Então, ele a convida pra dançar tango! E o resto... pura magia do cinema.


Vídeo: Cena de Perfume de Mulher

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Um mimo do meu amigo Zezito.

OBS.: para acessar o vídeo, clique no link, sob Cena de Perfume de Mulher.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mais família e lazer, menos política.

A pesquisa realizada com jovens belo-horizontinos de 18 a 24 anos revela que para eles a família (98%) e o lazer (98%) são mais importantes que a política (55,8%). Depois do lazer, vem o trabalho (95%), sexo (90,3%), religião (81,5%). A pesquisa Juventude, participação e voto foi realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais - Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). Foram realizadas 500 entrevistas. 82,3% dos jovens declararam pouco ou nenhum interesse por política. Quanto à confiança nas instituições, as igrejas (6,67%) vêm em primeiro lugar, seguidas das ONGs (6,43%), pessoas (5,93%) e TV (5,28%) - os partidos políticos vêm em último lugar (3,71%). Segundo Heliomara Telles*, coordenadora da pesquisa, "Os dados nos mostram um eleitor jovem muito pouco interessado em política, descrente da possibilidade de ser ouvido pelo governo e desconfiado das instituições representativas. Por outro lado, são motivados pelos valores pós-modernos - como o meio ambiente e o desenvolvimento autosustentável - e profundamente vinculados à família."

*Fonte: Estado de Minas (19/9/2010), p.4.

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Comentários...?

sábado, 18 de setembro de 2010

Brasileiras na rota da exploração sexual

É o que diz o relatório da ONU* Tráfico de Pessoas para a Europa para Fins de Exploração Sexual. Cada vez mais, brasileiras são traficadas no mercado da exploração sexual da Europa Ocidental. Elas são destinadas para Espanha, Itália, Portugal, França, Holanda, Alemanha, Áustria e Suíça. Nas estatísticas relativas à origem das mulheres traficadas, 32% vêm dos Balcãs; 19% dos países da antiga União Soviética; 13% da América do Sul; 7% da Europa Central; 5% da África e 3% do Leste Asiático.

Segundo estimativas da ONU, há "140 mil mulheres vítimas do tráfico, traficadas em condição de servidão e juntas fazendo cerca de 50 milhões de programas sexuais por ano, a um valor médio de 50 euros cada, gerando lucro anual de 2,5 bilhões de euros - R$ 5,5 bilhões."

Por ano, são feitas 70 mil novas vítimas do crime organizado para exploração sexual. Propostas falsas de trabalho e benefícios são usadas para aliciar novas vítimas.

*Fonte: revista Planeta, edição 455 - agosto 2010, p. 78.

* * *

Um recorte em preto e branco da realidade de milhares de mulheres ainda reféns da "condição" feminina. Quais respostas o direito pode dar às questões de ordem sexual? A regulamentação da prostituição bastaria? Ou sempre algo de ordem sexual desafiará o direito?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A horta de Michelle Obama

Carlo Petrini (Slow Food) em entrevista à revista Planeta* disse que a primeira-dama Michelle Obama, atendendo a pedido de Alice Waters - vice-presidente do movimento Slow Food - fez uma horta em casa. O fundador do Slow Food destacou o exemplo de Michelle Obama. Segundo Petrini, devemos "superar o conceito de consumidor e reforçar o de coprodutor, pois comer é um ato agrícola". E o consumidor, para ele, não pode ser passivo. Ele propõe uma educação com contato com a terra e alerta para o tempo que as crianças europeias gastam diante da tevê - uma média de 3h/dia. O pai do Slow Food argumenta que "as crianças bombardeadas pela publicidade ficam destituídas de critério seletivo, perdendo assim a capacidade de decodificar as mensagens que as absorvem inteiramente. Por isso, é preciso colocá-las em contato com a terra, para que compreendam como se semeia, se cuida da planta, que fruto ela dá... Para que conheçam as leis e os processos da vida que determinam suas próprias existências." Sobre o movimento Slow Food ser uma utopia, ele respondeu: "- Quem planta utopia colhe realidade."

*Fonte: revista Planeta, edição 455 - agosto/2010, p.7.

* * *

Com horta, sem horta, as crianças precisam mais de poesia!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Conferência de Malvine Zalcberg



A psicanalista Malvine Zalcberg, autora de A Relação mãe e filha, Amor paixão feminina e de Qu'est-ce de qu'une fille attend de sa mère? (Que é que uma filha espera de sua mãe?), lançado neste ano, estará em BH para conferência na XXVIII Jornada do Fórum de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

Malvine, em março deste ano, falou sobre "Parcerias Amorosas Sintomáticas"*. No próximo dia 25, Malvine abordará a contingência do encontro entre o homem e a mulher. Marco Antônio Coutinho Jorge também estará presente na Jornada, no mesmo dia, com a conferência "A clínica da fantasia".

Informações: (31) 3223-6115
E-mail: cpmg@cpmg.org.br

*Mais: Síntese da palestra

Comentário sobre a conferência: A mágica do amor na conferência de Malvine

domingo, 12 de setembro de 2010

O que é ser sexy?

A revista IstoÉGente, edição de set/2010, nº 573, traz fotos dos 50 mais sexy - homens e mulheres. Lideraram o topo da lista: Reynaldo Gianecchini e Grazi Mazzafera. Fotos de beldades, gente linda, linda. Algumas fotos bem interessantes como a do Guilherme Winter, um jeito sexy no olhar,sorriso, na cara limpa, no cabelo cacheado, na t-shirt branca, um jeito meio sexy de ser, naturalmente, se é que me entende!; a do Edson Celulari, cabisbaixo, com um certo mistério, um homem lendo, provavelmente o texto, por ele ser ator, o que deu à foto um tom real - uma cena da vida "real" de um homem maduro que tem algo nele sexy; a do Cauã Reymond... e a do Cesar Cielo, talvez a foto mais sexy! Senti falta do Rodrigo Santoro, Thiago Lacerda, Paulo Ricardo, César Tralli, Chico Buarque, Lenine, Luiz Melodia, mas...

Curioso que na mesma revista há uma entrevista com Arnaldo Jabor. Entre outros assuntos, ele fala sobre sensualidade e sobre o que é ser sexy. Diz ele: "Ninguém é sexy. É sexy em relação a alguém, o restante é celebridade e a indústria da masturbação. Posso achar uma mulher linda e não sexy, como a Gisele Bündchen." Uma mulher sexy pra Arnaldo Jabor? Julia Roberts.

Ah, senti falta da Sônia Braga entre as mais sexy.

Pegando carona: o que é ser sexy pra você? Quem é sexy pra você?

Mais: Beleza

Multa aos pichadores!

Os pichadores de BH que se cuidem!

O Ministério Público Estadual não vai dar mais moleza aos pichadores. Estes poderão ter que pagar multa (alta) pelos prejuízos que causarem aos bens públicos da cidade. É a primeira ação civil pública ajuizada na Comarca de Belo Horizonte que pretende dar uma solução aos atos danosos praticados por pichadores e vândalos. A ação foi ajuizada pelo promotor Cristovam Joaquim Ramos Filho. De acordo com o promotor*, "A pichação é considerada crime de menor potencial ofensivo. É feito um acordo para encerrar o processo, além de reparar o dano, o infrator tem que pagar um salário mínimo pelo seu ato. Mas, sabemos que somente 50% deles quitam esse valor." Quando há formação de quadrilha, no entanto, a história é outra: não tem cabimento o referido acordo. Segundo o promotor, "(...) Se o juiz julgar procedente a ação, a multa será estipulada por ele e deve ser alta. Caso os acusados não tenham condições de pagar a quantia, vamos transformar a pena em prestações de serviços".

Em BH ocorrem mais de 300 pichações por mês. Nada menos que, em média, 10 pichações por dia. A PBH (prefeitura)tem que gastar R$ 2 milhões por ano para reparar os equipamentos públicos depredados por vândalos.

Em breve, BH contará com uma delegacia específica para combater a ação dos pichadores!

*Fonte: Estado de Minas (11/9/2010), Caderno Gerais, p. 21.

sábado, 11 de setembro de 2010

TJMG autoriza aborto

Há duas semanas, a 9ª Câmara do TJMG, por unanimidade, autorizou aborto de feto "portador de anomalia irreversível, (...) o que resulta em probabilidade de morte em 100%", segundo laudo médico. O Desembargador Relator José Antônio Braga privilegiou o princípio da dignidade da pessoa humana. De acordo com seu voto, "o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana deverá prevalecer sobre a garantia de uma vida meramente orgânica". Em outro julgamento, anterior a este, a 13ª Câmara do Tribunal atendeu ao pedido de aborto de feto anencéfalo.

Fonte: Estado de Minas (11/9/2010) p. 23.

Mais: Quem fala por você,mulher?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

PEQUENOS DESACATOS


Adel Souki*
Foto: Miguel Aun.


nem súdita nem rainha
nem anjo nem demônio
nem diva nem dona de casa

nem Glória nem Maria, tampouco Maria da Glória
dizem que nome é coisa importante
eu não ligo

profane meu nome
minha mãe, meu pai, meu tetravô
eu aguento

de mim sei tão pouco
e o que eu sei foi achado
no galope lento do meu tato

não me cubra de lisonjas
sou mulher de poucos adornos
não mereço tantos cuidados

pelo menos uma vez me ame
com a volúpia e dor
de um amante que se dá em despedida

- preciso me sentir sua



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Viviane Campos Moreira em AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS
Postado em videbloguinho

*Queima em alta temperatura - Forno Anagama.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: FISSURA.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cheinhas na moda

Desfile de moda em Nova Iorque para as mais cheinhas!
As "plus" não ficarão fora da Semana de Moda de NY.

A modelo Lizzi Miller disse* que "este será o 1º grande desfile de modelos plus- size." Lizzi em 2009 foi "a mulher da página 194" da revista Glamour, edição de setembro. Na matéria "O que todo mundo menos você percebe sobre seu corpo", Lizzi posou com uma lingerie fininha mostrando uma barriguinha que levantou o debate sobre como as mulheres querem se ver nas revistas femininas. A editora da Glamour, Cindi Leive, recebeu centenas de e-mails no estilo "I love the woman on p.194!"

* * *

Esse desfile indica uma leve mudança nos rígidos padrões de beleza, saúde, sucesso e sex appeal?

*Vídeo: br.msn

OBS.: para acessar o vídeo, clique no link acima, sob br.msn. E para ver a famosa foto de Lizzi, clique no texto em Glamour (em itálico e negrito). O post da Glamour teve mais de 1.260 comentários e mais de 850 tweets.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Convite ao Pensar" - Filosofia PUC Minas



Histórias de amor e traicão - este é o tema do Convite ao Pensar deste 2º semestre. Evento realizado pela Filosofia da PUC Minas com coordenação do professor e coordenador do curso de Filosofia, Sérgio Murilo Rodrigues*. As palestras serão realizadas aos sábados na PUC do Coração Eucarístico, Auditório 3, Prédio 43 às 10h15. Entrada franca, com direito a certificado de participação.

Programação:

11 de setembro Macbeth: Trair para ser fiel Sérgio Murilo Rodrigues
16 de outubro Madame Bovary ou o desamor é uma morte Reginaldo Horta
30 de outubro Capitu e Diadorim: o enigma da traição e do amor Audemaro Taranto Goulart
6 de novembro Carmen de Bizet: O amor é um pássaro rebelde Haroldo Marques

Informações: (31) 3319-4633
E-mail: filosof@pucminas.br

*Entrevista com Sérgio Murilo Rodrigues sobre consumismo:
1ª parte
2ª parte

OBS.: para abrir a entrevista, clique nos links acima, sob 1ª parte e 2ª parte.

domingo, 5 de setembro de 2010

Marx e a subjetividade

Como o marxismo explica a questão da subjetividade na atualidade?

Em entrevista ao Estado de Minas*, Eduardo Mourão Vasconcelos (UFRJ), autor de Karl Marx e a Subjetividade Humana (3 vols.), disse que “As políticas neoliberais acentuaram as mazelas econômicas, sociais e ambientais de amplas parcelas da população mundial, o que tem forte impacto na saúde mental desta população. Por exemplo, pobreza, altas taxas de desemprego e de trabalho precário e informal difundem quadros de desamparo e depressão, de desarticulação da perspectiva de futuro através da dedicação à escola, ao trabalho e à carreira pessoal, e da esperança dos filhos terem uma vida melhor por meio do investimento de longo prazo na educação e formação para o trabalho. Isso gera aumento da criminalidade, do tráfico e do abuso de drogas, das milícias e da violência social, que por sua vez aumenta a incidência de fobias, estresse pós-traumático, depressão etc. Em paralelo, as famílias, com provedores com vínculos cada vez mais voláteis e divididos entre longas jornadas de trabalho externo e os afazeres domésticos, estão cada vez mais esgotados e indisponíveis para as exigências do processo de socialização real e psíquica de nossas crianças e adolescentes, estimulando os processos deliquenciais. Na outra ponta, o capitalismo contemporâneo induz um enorme desinvestimento em políticas de educação, saúde e saúde mental. Não tenho dúvidas de que as contribuições do marxismo são fundamentais para compreender tais processos, em diálogos interteóricos com outras abordagens engajadas acerca da subjetividade.”

*Caderno Pensar (4/9/2010) – p.6.

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“Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração”... Cá estamos, Drummond!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Apaixonados pela beleza


Foto: Geraldo Magela.


Que beleza é fundamental, todos sabemos. Assim nos disse Vinicius de Moraes depois de pedir perdão às muito feias. Entretanto, o Humberto Werneck chamou nossa atenção para os mistérios do borogodó. Affonso Romano de Sant’Anna fez uma crônica para a mulher madura e os encantos do corpo “que já tem história”. Ao contrário do que muitos pensam ou acreditam, o corpo da mulher madura desperta fantasias. Já o Fabrício Carpinejar, falando da fealdade no Jô, disse que uma das vantagens em ser feio é que “o feio não tem nada a perder”. Os belos… Mais cedo, mais tarde deixarão de ser belos, pois a beleza como o amor também acaba.

Sábio foi o Paulo Mendes Campos quando não escolheu a beleza como tema da crônica “O amor acaba”. Paulinho, como dizia Vinicius, poetizou que o amor acaba em uma esquina qualquer, em um dia de semana qualquer, em uma cidade qualquer – até em Paris. “O amor acaba para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto”. Bem diferente da beleza que um dia acaba sem poder recomeçar. Então nos rendemos à sua efemeridade, por não ter outro jeito. Talvez por isso lutamos tanto pela beleza?

Violetta em La Traviata (Verdi) estranha o amor. Adorada nos salões parisienses por sua beleza, o acaso lhe reserva um encontro tardio com o amor. Ela, uma cortesã. Ele, um rapaz protegido pelo pai. Violetta se entrega ao amor de Alfredo, mas o preconceito e a hipocrisia interrompem a belíssima história de amor, separando os amantes. E quando eles se reencontram não há mais tempo. Beleza e vida marcadas pela dor, solidão, são vencidas pela doença. Violetta, que pedira a Alfredo para ele a amar o quanto ela o amava (Amami, Alfredo"), morre nos braços do amado.

Não só as heroínas, mas também mulheres comuns, por vezes, conseguem enlaçar a beleza ao amor. Minha avó Heloísa foi uma dessas mulheres. Não era mãe de minha mãe nem mãe de meu pai, mas uma vizinha muito amada no interior de Minas. Uma baiana que tinha muita formosura. No final da tarde, todos os dias, ela se enfeitava, perfumava-se e mais bela ficava à espera do marido e pai de seus quatro filhos, que retornava do consultório por volta das sete. Quando ele chegava era um acontecimento. Às vezes, eu ficava pra assistir ao encontro. Sentávamos à mesa, e eu observava… O pão quentinho como ele gostava, a sopa, os olhares e carinhos, a conversa animada e as risadas das minhas lorotas de criança. Então, eu ia pra casa. Curiosa. No outro dia bem cedo, eu pulava da cama pra voltar àquela casa que tinha cheiro e dengo e encantamento. Chegava para o café da manhã. Olhava pra ela, ele, mesa posta… Eu queria estar entre eles novamente na primeira refeição do dia pra saborear a vida com a beleza e o amor.

Sempre que eu os revejo, penso no sentido dado à beleza hoje. Desde quando beleza precisa ter sentido? Sabe-se lá por que uns nascem tão belos e outros não? Ou por que razões o feio parece bonito para quem o ama? Por que nos ocupamos tanto com a beleza? Cometemos mais desatinos pela beleza que pelo amor. Ainda fazemos loucuras por amor. Algumas. Pela beleza, no entanto, não medimos esforços nem sacrifícios. Somos apaixonados pela beleza. Somos muito mais belos que amados. E mesmo não amados, somos belos.

Sobra beleza nos filmes, novelas, revistas, TV, teatro, internet, praia, shopping, academias, botecos, consultórios, escritórios, bancos, tribunais, escolas e empresas. Parece que o mundo deseja possuir a beleza, com tantas que há nele. Tem beleza demais e amor de menos. Beleza instruída de acordo com o senso estético do momento. Beleza idealizada. Conformista. Ousa pouco nas artes do amor e acredita que se basta.

O amor fica desconfiado com a beleza que não se revela. Ensimesmado, com a beleza que não o ilumina. E o que se guarda da beleza não é o arrebatamento do amor? A beleza que se dá pelo amor e se deseja amada? A beleza se refaz na narrativa do amor. Na memória encantada do amor. Na imaginação que recria a beleza do outro em um gesto, um olhar, um sorriso que nos encheram de amor. Beleza escandida nos recantos do amor. Beleza que ama. Faz sentido.


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Viviane Campos Moreira.
Crônica publicada no Amálgama

No texto, para abrir a página da crônica do Humberto Werneck, clique na palavra borogodó. Para saber mais sobre Giuseppe Verdi, clique na palavra Verdi entre parênteses. Para ver a ária de La Traviata, clique em "Amami, Alfredo" e acesse o vídeo.

(OBS.: para reprodução do texto em blogs, sites, portais, favor observar as normas do blog Amálgama. Favor citar os créditos como especificados no Amálgama. O Balaio da Vivi não autoriza a reprodução do texto de forma diversa ao que está regulamentado no blog Amálgama.)