quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Luz que não se apaga





Iris, filme estrelado por Kate Winslet e Judi Dench, baseado no livro de John Bayley sobre a escritora irlandesa Iris Murdoch, acometida pelo mal de Alzheimer. Uma história de amor à vida farta de afeto.

Iris convida-nos a navegar na força reluzente do seu pensamento, na sua criação e nos seus tormentos; no fulgor incandescente da sua mente.

A narrativa de liberdade, amor, desejo foi vivida com John Bayley, para quem ela disse: "É só ficar ao meu lado e tudo ficará bem!" E ao lado dela ele esteve até o último momento possível. Desejo, amor, liberdade e cuidado, ao lado de John Bayley.

Conheceram-se num encontro informal de um grupo de amigos reunidos em torno de uma mesa:

"- Claro que é questionável descrever os sentimentos. Por mais que se tenha cuidado, assim que se começa a definir um sentimento, a linguagem o trai. Não bastam palavras para dizer a verdade. Quase tudo, exceto coisas como 'passe o molho', é uma espécie de mentira. Sendo assim, vou me calar: - Ah, passe o molho." Enquanto Iris se rende às traquinagens da linguagem, um homem se apaixona pela oradora.

O que ela teria além da beleza? Dos olhos azuis fulgurantes? Do corpo com as medidas da juventude? Quais seriam os mistérios da sua mente? Do mundo dela? Teria sido esse o despertar amoroso de John Bayley?

Um homem seduzido? Encantado. Entregue ao sabor do ritmo do Tcha-Tcha-Tcha: moviam-se ombros, braços, mãos, cabeça, e a graça do feminino acendia-se ao parceiro. Em delicados trejeitos, o feminino se revelava ao outro, a beleza era posta em movimento e o sorriso provinha de um sentimento de felicidade - fugaz, mas real.

Iris faz sua escolha: John Bayley. "Eu te quero, John Bayley!" Um homem e uma mulher se enamoram... O homem tomado de desejo pela oradora alcança o amor e o seu destino: ao lado dela. Cúmplices na linguagem, na vida, tornam-se amigos, amantes.

Eles não eram pessoas comuns, mas outsiders num momento infeliz em que a humanidade se distanciou do pensar. Um homem e uma mulher acostumados a viver no reino das palavras: “Sem as palavras, como iríamos pensar?” – indaga Iris.

Ao sentir a presença da doença, Iris argumenta com seu fiel interlocutor: "Todos temos medo de enlouquecer. (...) Quais de nós têm mente saudável?" A doença foi enfrentada como o único mal invencível na sua trajetória. A palavra era o território de Iris. O pensamento, a razão da sua vida. A partilha, um exercício de alegria. O afeto, sua existência luminosa na memória do outro.

Para uma plateia de gente bem-educada, convidada a falar sobre educação, a filósofa Iris, então autora de 26 romances, diz:

"- A educação não traz felicidade e nem sequer liberdade. Não nos tornamos felizes porque somos livres. (...) Mas a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Abre nossos olhos e ouvidos. Conta-nos onde se escondem os prazeres. Convence-nos de que só existe uma liberdade: a da mente. E nos dá a segurança, a confiança para trilhar o caminho da mente, que nossa mente educada proporciona."

Em um momento comezinho da dupla, John Bayley, então maduro professor de literatura, lamenta: "A única linguagem que se entende hoje é a imagem. Faça o retrato!" Iris retruca: "Amor é a única língua que todos entendem".

E uma senhora encantadora discursa sobre o amor:

"- Os seres humanos se amam: no sexo, na amizade, e quando estão apaixonados. E eles cuidam de outros seres: humanos, animais, plantas e até mesmo pedras. A busca e a manutenção da felicidade estão em tudo isso e no poder da nossa imaginação. Toda alma humana assume talvez mesmo antes do nascimento formas puras, tais como: justiça, moderação, beleza e todas as qualidades morais de que nos honramos. Somos levados em direção ao bem, pela vaga lembrança dessas formas simples, tranquilas, abençoadas, as quais vimos uma vez em uma luz límpida e clara, sendo nós mesmos puros."

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Viviane Campos Moreira
Postado no videbloguinho

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