domingo, 19 de dezembro de 2010

A morte pela vida





Duas passagens, uma no cinema, outra no teatro, cruzam-se na escolha pela vida, em enredos nos quais esta decisão implica um lugar fora da ordem.

Em séculos diferentes, as heroínas Laura Brown e Nora cumpriam com dedicação seus papéis de esposa e mãe quando, assombrosamente, desviam-se do rumo que percorriam, modificando para sempre suas narrativas.

Laura Brown, personagem interpretada pela atriz Julianne Moore no filme As Horas. Nora, personagem da clássica peça Casa de Bonecas do norueguês Henrik Ibsen - representada nos palcos brasileiros, nos anos 1970, por Tônia Carrero.

A personagem do filme As Horas, Laura Brown, uma dona de casa que se sentia massacrada na moldura em que o marido a engessara; no lugar em que ele a fixara. O discurso do marido resumia-se à síntese do primeiro encontro. Para Laura Brown, a incapacidade do marido em transcender suas próprias marcas e de se abrir ao mundo dela tornara-se uma fôrma sufocante. Assim, sem poder se deslocar do lugar que lhe fora dado pelo marido, Laura Brown passou a desejar a morte como saída. Arquitetou a própria morte: hospedou-se em um hotel e pediu ao mensageiro para não ser incomodada, defendendo os restos de sua privacidade. Deitou-se na cama, ao lado de vários frascos de comprimidos sobre o criado. Abriu um livro, o romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. Ensaiou uma leitura. Acariciou sua barriga enorme - estava grávida. E, inopinadamente, desistiu dos seus planos.

Encerra-se a cena. A narrativa transcorre e a personagem reaparece velhinha no enterro do seu filho escritor Richard (Ed Harris) que se suicidara. A amiga dele, Clarissa (Meryl Streep), toma para si o acerto de contas do filho (seu amigo) com a mãe (o filho morreu sem rever a mãe que o abandonara quando criança) e lhe pergunta por que ela o havia abandonado. Laura Brown responde: " - É estranho sobreviver a todos mas, naquela tarde, eu escolhi a vida à morte."

Arrebatados, cedemo-nos à narrativa da heroína que naquela tarde escolhera a vida. Soberana sua escolha. Daquele momento (da cena do hotel) para frente, nada que significasse morte para a personagem faria parte da sua vida, pois, naquela tarde, ela decidira viver. A sua escolha pela vida excluía o marido, o filho, a filha. Todos estavam mortos. Ela restou viva por ter escolhido viver. A sua escolha lhe garantiu a vida.

O drama da personagem remete ao de Nora da peça Casa de Bonecas. Menos pelo teor da angústia, mais pelo desejo de viver. Nora era uma mulher belíssima com reconhecidos talentos femininos. Bem casada, seguia os rumos certos de uma época, quando se peecebe  inquieta. O seu marido a amava, tratava-a como "minha cotoviazinha", confirmando o lugar dado às mulheres naquela época. Fora do lar, Nora podia "voar" sem maiores comprometimentos com a roda da vida, pois seu marido respondia pelo seu caminhar. E, ao pousar, Nora permanecia boneca, como a educação que lhe fora dada. As alternâncias de possíveis papéis à Nora: cotovia-boneca.

No último ato, Nora arruma as malas e diz ao marido que quer ter a sua vida: "a vida de um ser humano” - de uma mulher de carne e osso - quando se depara com a impossibilidade de se reinventar no seu casamento. Para ela, a condição de cotovia-boneca tornara-se a morte. Nora desejava ser outra: ser ela mesma. E isso não era possível naquele lugar. Tudo lhe fora dito. Tudo lhe fora negado. Encerra-se a peça com a personagem batendo a porta da casa de bonecas na qual ela não se reconhece mais.

Contextos fortes, situados entre a vida e a morte, comuns na escolha: a vida, com todos os créditos e débitos existenciais, por vezes intransferíveis.

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Viviane C. Moreira.
Publicado originalmente no videbloguinho.

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