terça-feira, 30 de maio de 2017

(des)concreto

paisagens: móveis?
                                                           
Viviane C. Moreira

terça-feira, 16 de maio de 2017

Um sonho de outono

Viviane C. Moreira


Um amigo do colégio com quem não rolou nada, nem um beijo, nem um beijinho, meu namorado hoje. Com o mesmo cabelo castanho embrulhado em cachos. O corpo, o mesmo: fino, reto e comprido. O sorriso fácil no rosto. O olhar de homem escondido no menino. Minhas mãos de hoje. As mãos dele de ontem. Eu&Ele hoje? Em um elevador antigo. "Por favor, desliguem os celulares e liguem o inconsciente" - um aviso, uma voz, o quarto sinal no teatro.


*

O aviso...
Na peça Hilda e Freud que esteve em cartaz no teatro Bradesco em Belo Horizonte nos dias 12 e 13 de maio.

Com Bel Kutner e Antonio Quinet.
Texto: Antonio Quinet.
Direção: Antonio Quinet e Regina Miranda.
Direção de arte e cenografia: Analu Prestes. 

Mais sobre a peça: aqui
Debate com a participação do autor, ator e diretor Antonio Quinet e da diretora Regina Miranda: aqui

terça-feira, 11 de abril de 2017

Páscoa

British Museum


O que vai viver, espera.

(Adélia Prado no poema Ovos de Páscoa)


*

Uma Páscoa feliz a todos!

terça-feira, 21 de março de 2017

Pedaço de céu

Outono em Belo Horizonte

Viviane C. Moreira


Quem não vê o outono no céu, sei não, sei não. Ou tem juízo demais. Ou tem juízo de menos.Bom dos olhos ainda não está. 

Outono, o beijo bom. Aquele que não precisa de explicação. Aquele beijo que não precisa de muito porque já é bom. Pode não ser o melhor - e por que seria, se já é bom? Todo mundo nessa vida de pouco tempo e gosto para tudo, até para o que não existe, entende um pouco dessas coisas de beijo bom, não entende?

Mas como tudo na vida é, quando é mesmo bom, o outono também é exigente. Deve ser por isso que a gente beija, beija no verão mas aprende a beijar mesmo no outono.

quinta-feira, 16 de março de 2017

CAFÉ & UVA PASSA



s.i.m
p.r.e.c.i.s.o.sim
n.ã.o.pre.ci.so.não
sim.p.r.e.c.i.s.o.s.i.m.s.o.r.r.y
de.a.l.g.u.é.m.que.n.ã.o
me.dê.s.i.m

não
Jose.fina
ri.no.plas.

            ti.a não é
            bom pra dor
            nos rins

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            Viviane C. Moreira
            série AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS

            Publicado aqui


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Mais: MARCHINHA DE UMA SAFADINHA

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

MARCHINHA DE UMA SAFADINHA

ah
ai de mim
se eu fosse a Iasmim

eu roubava do Aladim
o gênio
para mim
ah
ai de mim
se eu fosse a Iasmim
eu teria um gênio
amante
só para mim

ai do Aladim
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Viviane C. Moreira
série AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS

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Mais: VEXAME

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

VEXAME



não

fica o dito 

pelo não dito

eu grito

o gato não 
comeu 
a minha língua

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Viviane C. Moreira 
série AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS

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Mais: CHIC


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A verdade em algum lugar

Foto: Danielle Oliveira


Em verdade, todos temos pelo menos uma verdade para contar.
Em verdade, acostumamos a não contar nem pelo menos uma verdade.
Em verdade, fazemos de tudo para não contar, de forma alguma, essa verdade.
Em verdade, corremos atrás do impossível para silenciá-la.
Em verdade, enlouquecemos para apagar a verdade de nós mesmos.
Em verdade, o hospício está cheio de verdades.
Em verdade, em algum lugar, ainda assim a verdade se tece e se faz presente.

Em verdade vos digo nos desafia a escutar verdades.
Mais do que escutar, nos propõe um jogo com verdades.
Podemos estar entre verdades nesse jogo.
Entre verdades escondidas. 
Entre verdades inventadas. 
Entre verdades proibidas. 
Entre verdades vividas, sobretudo quando estamos na pele de um outro. 

Somos avisados: "o espetáculo já começou". 
O jogo já começou.
Quem vai contar uma verdade, aquela, primeiro?

Personagens que existem em todas as cidades do mundo. 
Pessoas invisíveis. 
Gente que experimenta no próprio corpo a vida dura das verdades detrás da face do outro. 
Gente da vida. 
Homens e mulheres da vida. 

Corpos marcados pela vida. 
Corpos que não escolhem como querem ser marcados pela vida. 
Corpos em que a vida deixa suas marcas mais profundas.
Corpos. Mercadorias. Peças de um jogo.

E quem pode afirmar que não está no jogo que transforma corpos em mercadorias?

O teatro?

*

Em verdade vos digo: com André Luiz Dias, Luciene Lemos, Amanda Chaves e Cristal Lisboa.
Direção: André Luiz Dias.
Dramaturgia: André Luiz Dias e Anderson Feliciano.
Produção: Instituto Cultural In-cena.
Grupo In-cena de Teatro. (Teófilo Otoni - MG)

A peça esteve em cartaz nas terças, quartas e quintas-feiras no período de 31/1/17 a 16/2/17 no Sesc Palladium em Belo Horizonte.

Em verdade vos digo integrou a 43a. Campanha de Popularização de Teatro e Dança.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Pussies na rua



E, finalmente, 2017 começou com um desfile de pussies rosas, vermelhas, marrons, pretas, amarelas, brancas, laranjas, roxas, violetas, cinzas, azuis nas cabeças de mulheres, homens, crianças e idosos nas ruas de Washington. Desfile que se espalhou para outras cidades dos Estados Unidos e do mundo.

Pussy é uma palavra versátil que pode significar uma coisa e outra, sem que haja, entre seus significados, um muro. Pussy pode ser gatinha e também vagina. E a palavra simbolizada pela imagem de gatinha nos gorros remete ao seu outro significado


Em resposta a posturas inadequadas no tempo e no espaço do Presidente Donald Trump, durante a campanha, centenas de milhares de mulheres foram para as ruas de Washington exibindo, nas suas cabeças pensantes, falantes e criativas, o lugar da feminilidade hoje na sociedade norte-americana.


O gorro de gatinha foi usado como artifício para dizer o que pode ser dito da feminilidade hoje pelas próprias mulheres que brincaram com a palavra pussy. O chapeuzinho de pussy afirma o que a palavra significa. Mas por que a vagina?


Ainda hoje, no imaginário de homens e mulheres, a inferioridade feminina pode estar associada à falta do órgão, no corpo da mulher, que representa o falo. Culturalmente, a “natureza feminina” decorrente do corpo da mulher despossuído de virilidade foi apropriada pelos homens na construção da feminilidade. Nestdeterminou-se um lugar bem marcado, socialmente, para as mulheres: a família e o lar, como diz Maria Rita Kehl em Deslocamentos do feminino. Esse lugar marcado serviu para afirmar a ordem burguesa: famílias nucleares, com as mulheres no lar. Contudo, nem todas as mulheres, sobretudo no séc. XIX, ajustaram-se à fixidez desse lugar e, ainda que tenham tentado, não se adaptaram ao padrão burgs de feminilidade.


Essas mulheres, pela sua rebeldia, possibilitaram a Freud escutar a insatisfação delas com a feminilidade da época. Assim, a psicanálise foi criada em um contexto histórico de declínio da família patriarcal, como diz Elisabeth Roudinesco (Medicina, psiquiatria e psicanálise – semiologia do sujeito no livro Em defesa da psicanálise - ensaios e entrevistas). “Freud, tributário de uma visão política da histeria, atribuiu-lhe valor emancipador, assimilando-a a uma revolta impotente das mulheres entravadas em sua sexualidade”. A revolta dessas mulheres, no entanto, possibilitou que novos arranjos de família surgissem tempos depois a partir de invenções de outras mulheres.

Maria Rita Kehl aponta a insatisfação da personagem Emma Bovary (Flaubert) com feminilidade da sua época. Ainda que Emma desejasse se tornar outra mulher, ela não poderia, por causa da sua limitação na linguagem. Ela ficou restrita ao mundo de linguagem do outro que não deixa de ser um mundo de linguagem pronto - um muro concreto. Não conseguiu inventar o próprio discurso, ficando presa no discurso do outro e na posição de objeto do desejo do outro. Quem sou? Esta pergunta, Emma não conseguiu responder, ainda que tenha sido esposa, mãe e amante de outros homens. A transgressão possível para Emma foi se transformar em uma consumidora sem limite. “A mulherzinha de Flaubert”, como provoca Maria Rita, foi falada pelo outro. Não alcançou o falo da fala.


As mulheres da Marcha de 21 de janeiro de 2017 não precisam mais reivindicar o falo da fala, como as do séc. XIX. Precisam, todavia, defender a sua posse. Foram para rua defender direitos já conquistados e com amorhumor usaram o falo da fala. O chapéu de pussy enfeitou a cabeça de quem hoje sabe brincar com o falo da fala. E se a vagina no séc. XXI, em imaginários de gosto duvidoso, ainda persiste associada à inferioridade feminina, por que as pussies brincalhonas ficariam escondidinhas em casa?  

Nessa marcha, as mulheres de Washington não estão sozinhas e mais coloridos estão seus discursos.  


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Viviane C. Moreira
Postado em  balaiodavivi.blogspot

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Sobre a multiplicidade de discursos feministas na atualidade - ensaio de Carla Rodrigues na Serrote:  aqui