terça-feira, 31 de agosto de 2010

Apaixonados pela beleza


Foto: Geraldo Magela.


Que beleza é fundamental, todos sabemos. Assim nos disse Vinicius de Moraes depois de pedir perdão às muito feias. Entretanto, o Humberto Werneck chamou nossa atenção para os mistérios do borogodó. Affonso Romano de Sant’Anna fez uma crônica para a mulher madura e os encantos do corpo “que já tem história”. Ao contrário do que muitos pensam ou acreditam, o corpo da mulher madura desperta fantasias. Já o Fabrício Carpinejar, falando da fealdade no Jô, disse que uma das vantagens em ser feio é que “o feio não tem nada a perder”. Os belos… Mais cedo, mais tarde deixarão de ser belos, pois a beleza como o amor também acaba.

Sábio foi o Paulo Mendes Campos quando não escolheu a beleza como tema da crônica “O amor acaba”. Paulinho, como dizia Vinicius, poetizou que o amor acaba em uma esquina qualquer, em um dia de semana qualquer, em uma cidade qualquer – até em Paris. “O amor acaba para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto”. Bem diferente da beleza que um dia acaba sem poder recomeçar. Então nos rendemos à sua efemeridade, por não ter outro jeito. Talvez por isso lutamos tanto pela beleza?

Violetta em La Traviata (Verdi) estranha o amor. Adorada nos salões parisienses por sua beleza, o acaso lhe reserva um encontro tardio com o amor. Ela, uma cortesã. Ele, um rapaz protegido pelo pai. Violetta se entrega ao amor de Alfredo, mas o preconceito e a hipocrisia interrompem a belíssima história de amor, separando os amantes. E quando eles se reencontram não há mais tempo. Beleza e vida marcadas pela dor, solidão, são vencidas pela doença. Violetta, que pedira a Alfredo para ele a amar o quanto ela o amava (Amami, Alfredo"), morre nos braços do amado.

Não só as heroínas, mas também mulheres comuns, por vezes, conseguem enlaçar a beleza ao amor. Minha avó Heloísa foi uma dessas mulheres. Não era mãe de minha mãe nem mãe de meu pai, mas uma vizinha muito amada no interior de Minas. Uma baiana que tinha muita formosura. No final da tarde, todos os dias, ela se enfeitava, perfumava-se e mais bela ficava à espera do marido e pai de seus quatro filhos, que retornava do consultório por volta das sete. Quando ele chegava era um acontecimento. Às vezes, eu ficava pra assistir ao encontro. Sentávamos à mesa, e eu observava… O pão quentinho como ele gostava, a sopa, os olhares e carinhos, a conversa animada e as risadas das minhas lorotas de criança. Então, eu ia pra casa. Curiosa. No outro dia bem cedo, eu pulava da cama pra voltar àquela casa que tinha cheiro e dengo e encantamento. Chegava para o café da manhã. Olhava pra ela, ele, mesa posta… Eu queria estar entre eles novamente na primeira refeição do dia pra saborear a vida com a beleza e o amor.

Sempre que eu os revejo, penso no sentido dado à beleza hoje. Desde quando beleza precisa ter sentido? Sabe-se lá por que uns nascem tão belos e outros não? Ou por que razões o feio parece bonito para quem o ama? Por que nos ocupamos tanto com a beleza? Cometemos mais desatinos pela beleza que pelo amor. Ainda fazemos loucuras por amor. Algumas. Pela beleza, no entanto, não medimos esforços nem sacrifícios. Somos apaixonados pela beleza. Somos muito mais belos que amados. E mesmo não amados, somos belos.

Sobra beleza nos filmes, novelas, revistas, TV, teatro, internet, praia, shopping, academias, botecos, consultórios, escritórios, bancos, tribunais, escolas e empresas. Parece que o mundo deseja possuir a beleza, com tantas que há nele. Tem beleza demais e amor de menos. Beleza instruída de acordo com o senso estético do momento. Beleza idealizada. Conformista. Ousa pouco nas artes do amor e acredita que se basta.

O amor fica desconfiado com a beleza que não se revela. Ensimesmado, com a beleza que não o ilumina. E o que se guarda da beleza não é o arrebatamento do amor? A beleza que se dá pelo amor e se deseja amada? A beleza se refaz na narrativa do amor. Na memória encantada do amor. Na imaginação que recria a beleza do outro em um gesto, um olhar, um sorriso que nos encheram de amor. Beleza escandida nos recantos do amor. Beleza que ama. Faz sentido.


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Viviane Campos Moreira.
Crônica publicada no Amálgama

No texto, para abrir a página da crônica do Humberto Werneck, clique na palavra borogodó. Para saber mais sobre Giuseppe Verdi, clique na palavra Verdi entre parênteses. Para ver a ária de La Traviata, clique em "Amami, Alfredo" e acesse o vídeo.

(OBS.: para reprodução do texto em blogs, sites, portais, favor observar as normas do blog Amálgama. Favor citar os créditos como especificados no Amálgama. O Balaio da Vivi não autoriza a reprodução do texto de forma diversa ao que está regulamentado no blog Amálgama.)

domingo, 29 de agosto de 2010

FISSURA


Roberto Aleixo*
Foto: Miguel Aun.


odeio suas míopes certezas
adoro seu olho
meio morto
meio torto
manhoso
maroto


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Viviane Campos Moreira.
Poema inscrito na BPP6 - Dez/2008.
Evento realizado pelo GOM
Grupo Oficcina Multimédia - BH(MG)

*Queima em baixa temperatura.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: CONFIDENCIAL.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Entre o sonho e a realidade





Duas frases, dois contextos, duas personagens, dois significantes para o sonho.

No filme francês Roseline e os leões, o sonho para a personagem simboliza uma proposta de transposição da sua realidade.Roseline, uma jovem sonhadora,aventureira, destemida, sensível, depara-se com o seu desejo de vir a ser domadora de leões. Como uma centelha, o desejo ilumina a trajetória da personagem que acolhe a semente alvissareira da construção. Em um momento de seu percurso, alguém lhe diz: "Roseline, a menor distância entre dois pontos é o sonho".

Com esse significante, Roseline parte em busca da profissão pela qual se apaixonara. Entregou-se à paixão pelos leões. Com coragem e determinação, tornou-se uma efusiva domadora de leões fascinada pela beleza, brilho e robustez dos animais. Rendida ao calor da paixão, sua vida passou a ser narrada como uma história de amor e devoção de uma mulher pelos mimados reis da selva.

Em outro filme, um outro significante para o sonho que não imprime na personagem movimento. Ao contrário, seu sonho a paralisa. Harry Potter, um bruxinho que até certa idade não sabia de seus poderes, era órfão. Foi criado por tios pouco decentes - uma gente pra lá de esquisita. Tolerava, nem sempre, um primo chato e insuportavelmente mal-educado. Era membro de uma comunidade medíocre, pouco afetiva, com hábitos bizarros, na qual experimentava sensações aflitivas de quem sofre boicotes, assaltos ao brio individualizado e outras práticas de desamor. Nem mesmo um quarto Harry tinha. Fora-lhe reservado um cubículo sob a escada. E nesse enredo de falência de afeto, Harry estava se tornando um garoto subserviente e, na mesma medida, desobediente. Porém, a força de seu caráter o conduz numa bela trajetória.

Num certo momento, Harry, na fantástica escola de bruxos, prostra-se diante de um espelho mágico no qual vê a projeção de seu desejo. Mais do que isso, o desejo dele se concretiza numa imagem: o encontro dele com os pais. Através desta imagem, Harry vive seu sonho como negação de sua desditosa realidade de órfão, entregando-se à projeção de uma vida farta de afeto. E, num misto de estranheza e euforia, procura seu leal amigo para testemunhar a imagem de seu belo retrato de família: Harry, entre os pais, em perfeita harmonia. Todavia, seu colega lhe diz que não estava vendo a mesma imagem, mas uma outra: sua suposta testemunha via-se, com todas as honrarias, como chefe dos monitores e líder do time do esporte praticado na escola.

A partir da revelação da imagem vista pelo amigo, Harry se abandona diante do espelho na tentativa de fuga da sua realidade. Eis que surge o Mestre dos bruxos e lhe diz: "Devemos ter cuidado com os sonhos, Harry. Não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver".Nesse instante triunfante de magia, no qual o Bruxo sábio utiliza-se das artimanhas da filosofia para alternar o olhar da personagem a fim de despertá-la para um outro Harry, capacitado a modificar a própria vida, o personagem desperta-se para enfrentar sua orfandade.

Embora haja no contexto de Harry Potter um desejo similar ao da personagem Roseline, pois Harry também deseja transpor sua realidade, seu sonho não o investe em movimento algum, mas na paralisia de uma fantasia com matiz melancólico.No filme Roseline e os leões, o sonho para a personagem tem o significante de promessa de construção de uma outra realidade. Em Harry Potter e a pedra filosofal, a fantasia apenas encobre o mal-estar da personagem.

Ocorreu-me o quanto o ser humano vive entre o sonho e a realidade. O que esses momentos renitentes em que nos flagramos entre o sonho e a realidade têm a nos dizer? Talvez a indagação não se esgote em uma resposta. Ou, talvez, a resposta esteja na indagação.

Viviane Campos Moreira. Postado em videbloguinho

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A história de cada um


Foto: Geraldo Magela.

Certa vez ouvi a escritora Nélida Piñon, numa palestra do Sempre um Papo, dizer que "a narrativa não está fora da vida". A personagem do filme Ao entardecer, interpretada por Vanessa Redgrave, também nos mostra a importância da narrativa. Mais do que isso, a personagem nos encoraja a assumir a posição do narrador. Usar a palavra, imagem, gesto, o silêncio pra narrar a própria história. Não transferir esta função ao outro que também contará a nossa história. Quando não estivermos mais aqui, ou enquanto não assumirmos o lugar de narrador, o outro se torna o narrador da nossa história. Aquela que eu sou para mim, para o outro, será uma outra de mim. Quanto a isso, nada podemos fazer. Ironicamente, o personagem Franz de "A insustentável leveza do ser" (Milan Kundera), quando conseguiu se deslocar para o lugar de narrador, não teve mais tempo pra exercer a titularidade da própria narrativa. A história dele acabou sendo contada pela ex-mulher que não chegou a conhecer o Franz que se foi. Já o personagem Eulálio de "Leite derramado"(Chico Buarque) até quando delira não abandona sua narrativa nem a Matilde da sua memória.

O professor do filme Entre os muros da escola desperta os alunos para o sentido da narrativa. Propõe a cada um deles - em uma sala de aula marcada pela diferença - que conte a sua história. Assim, ele nos lembra de que devemos encarar o exercício da narrativa.

Vídeo: Trailer Entre os muros da escola

OBS.: para acessar o vídeo, clique no link acima, sob Trailer Entre os muros da escola.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Linguagem não domesticada

Promotores de Justiça ensinam o que é brincadeira e o que não é. Lélio Braga Calhau (MG) no Jornal Nacional, na matéria sobre bullying, chamou atenção para o que não é brincadeira. No Rio Grande do Sul, o promotor Neidemar Fachinetto tem dado palestras nas escolas de ensino fundamental* sobre bullying para orientar os alunos no exercício da linguagem - para que eles aprendam a distinguir quando o emprego de uma palavra pode significar uma brincadeira ou uma agressão.

*Fonte: Educação em revista - Ano XI - junho/julho 2010, p.42 - SINEPE/RS.

Mais: Zoar tem limite!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CONFIDENCIAL


Marcílio Figueiredo*
Foto: Miguel Aun.


senti o véu do
seu desprezo

não por mim
eu sei

mas você nunca quis
meus silêncios

repassei
minha cena

agressiva
fico mesmo, às vezes

guerreira sem têmpera
sou joana sem nervos

da minha coragem
você finge que gosta

dos meus arroubos
você se esconde

dos meus tropeços
você ri

e ri
eu sei

os meus medos
te encorajam

os meus excessos
te constrangem

a minha insegurança
te fortalece

ah
quase
me esqueci

da sua elegância austera
do seu gestual ensaiado
do seu bom-senso de todas as horas

é, ficou um tanto sem cor,
sem outros tons nosso amor vulgar
dá pra ser divertido um pouco?

- Amor,


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Viviane Campos Moreira em AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS
Postado em videbloguinho

*Raku. Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: VEXAME.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quem fala por você, mulher?


Foto: Geraldo Magela.


O cinema brasileiro volta e meia nos conta histórias de mulheres e crianças sacrificadas pela pobreza e invisibilidade. O homem vai embora e a subsistência da família recai sobre os ombros da mulher. A angústia da incapacidade de prover toda a família pesa e corrói a alma. A leveza se acanha com os rastros do abandono. A arte nos aproxima do enredo de vidas confinadas na pobreza.

Numa sociedade em que o laço social fragiliza-se cada vez mais com a ausência da função paterna, as brasileiras se equilibram nas funções de mãe, filha e trabalhadora em tempo integral: em casa e fora dela. Muitas conseguem embelezar a vida com arte, livros, filmes, saberes, amores. E outras tantas, milhares, milhões, penam diariamente com a falta do feijão com arroz à mesa.

Vi no blog do jurista José Adércio uma notícia assustadora: a existência de projetos de lei (PL-3207/2008 e PL-5058/2005) que visam transformar o aborto provocado em crime hediondo! Um calafrio de pavor percorreu meu corpo e me dei conta de como fui tola quando julguei que não passaríamos de “cachorras”. Pensei: quem são as “assassinas”? As bandidas, bárbaras, Joanas, Marias?

Mulheres em um estado democrático que não efetiva seus direitos. Não cuidamos da saúde integral da mulher, não asseguramos o exercício do direito ao planejamento familiar, não priorizamos políticas de assistência e apoio às famílias – creches, pré-escolas, escolas em tempo integral. Nossas instituições falham na proteção ao menor, na educação e cultura, e a moradia permanece um direito abstrato.

Em outros tempos, as mulheres foram anjos. Na era vitoriana, “os anjos da casa” cuidaram do lar, dos filhos e do marido com devoção, sem desejo sexual. Sexo? Só para procriação. Prazer? Não era coisa de anjo. As esposas eram “espíritos etéreos desprovidos de necessidades sexuais e sensuais, menos fortes e mais ‘puras’ do que os homens” (Marilyn Yalom em A história da esposa, da Virgem Maria a Madonna). Mas as puritanas revelaram-se desejantes nos anos 1920. O sexo passou a ser “um fim em si mesmo” para o prazer, saúde, bem-estar e felicidade. A contracepção se fez necessária.

Margaret Sanger, enfermeira e escritora polêmica (500.000 livros nos anos 1920), fundou uma clínica no Brooklyn para distribuir contraceptivos e informações sobre prevenção. Liderou campanhas, publicou artigos, foi perseguida por detratores, presa, mas o juiz reconheceu a contracepção como meio de evitar doenças venéreas. Sanger prosseguiu na defesa do direito ao controle da natalidade e sua clínica acabou servindo de modelo para outras. Segundo Yalom, quando a organização Planned Parenthood foi fundada em 1942, “metade dos americanos concordou que o controle da natalidade contribuía para a felicidade conjugal”.

Livres para decidir sobre o número de filhos, as norte-americanas se inseriram no mercado de trabalho – um fator preponderante na conquista dos direitos civis e da liberdade sexual. A Marcha pelos Direitos Civis ocorreu no ano de 1963 e, no ano seguinte, o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei de Direitos Civis, que proibiu a discriminação sexual no emprego. A Organização Nacional para Mulheres (NOW, na sigla em inglês) foi fundada em 1966 – Betty Friedan, autora de Mística feminina, foi sua primeira presidente –, apoiou a Emenda dos Direitos Iguais (ERA) e a legalização do aborto. A pílula se popularizou, mas, entre os anos 1920 e 1970, dezenas de milhares de americanas foram atendidas emergencialmente com complicações de abortamento. Em 1973, a Suprema Corte Americana, no caso Roe versus Wade, invalidou todas as leis que restringiam o aborto, vedando a ingerência do Estado na gestação. Foi reconhecido o direito da mulher sobre seu corpo.

Os norte-americanos não consagraram os direitos reprodutivos e sexuais num lampejo de alumbramento. Não foi uma simples deliberação de gabinete que criou estas duas categorias de direitos, mas um processo de legitimação das mudanças na sexualidade, iniciadas nos anos 1920. Os casamentos, os relacionamentos, a vida de homens e mulheres se transformaram com o sexo separado da reprodução. Com a revolução sexual nos anos 1960/1970, mitos e tabus foram debatidos e a sexualidade se modificou, com o prazer desvinculado da culpa.

Com todas as transformações na sexualidade; com a política global dos direitos reprodutivos e sexuais (direitos humanos) que implica ações afirmativas dos Estados; com o reconhecimento do aborto inseguro como um problema de saúde pública (Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento – Cairo/1994); e com a recomendação de revisão de legislações que punem o aborto (IV Conferência Mundial sobre a Mulher – Beijing/1995), ainda assim cogitamos punir com mais severidade o aborto provocado, previsto no Código Penal de 1940, tornando-o crime hediondo!

A Lei de Crimes Hediondos, bastante criticada, ficaria com mais um crime para punir, sem ter sido eficaz na redução daqueles a que se propôs combater – pesquisa do Ilanud, a pedido do Ministério da Justiça, revela que não houve redução dos crimes definidos como hediondos (esta é uma questão de política criminal que merece ser observada). Há leis sem ressonância normativa com a realidade social. O sintomático chavão “esta lei não pega” demonstra que fazemos leis apartadas das nossas questões sociais.

No Brasil colônia, mulheres desesperadas ingeriam ervas tóxicas (prática ainda comum) e caíam de árvores para provocar abortos. Atualmente, cerca de 1,44 milhão de abortos espontâneos e inseguros são praticados por ano no país, segundo o Ministério da Saúde. O “aborto inseguro” é a 4ª causa de morte materna no Brasil. Estudos da Fiocruz constatam que “a tipificação do aborto como delito não desestimula a mulher de se submeter ao aborto”. E, de acordo com o número de internações no SUS para procedimentos cirúrgicos pós-abortamento, as mulheres pobres são as que mais sofrem com as complicações de abortamento inseguro.

Outra pesquisa desvela um universo desolador de mulheres e crianças vivendo em condições absurdas. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1992-2008 (PNAD), realizada em 10 regiões metropolitanas, em 1992, 74,7% dos chefes de família (pessoas com 15 anos ou mais) eram homens e 25,3%, mulheres. Em 2008, 58,8% eram homens e 41,2%, mulheres. O número de famílias chefiadas por mulheres na extrema pobreza também aumentou. Estudos revelam, nas favelas e periferias, o isolamento de mulheres que não podem sair de casa para trabalhar porque não têm com quem deixar os filhos pequenos nem sequer podem contar com o apoio de familiares.

A solidariedade? Circula alvissareira nas salas de cinema. Fora do enquadramento lírico da realidade, no entanto, o desamparo sangra. Precisamos escutar quem está fora do discurso. A pior pena é a clandestinidade perpétua.


Viviane Campos Moreira. Artigo publicado no Amálgama
Também publicado na e-revista IPAS/Brasil n.45 - mar/2010

OBS.: para reprodução do texto em blogs, sites, portais, favor observar as normas do blog Amálgama. Favor citar os créditos como especificados no Amálgama. O Balaio da Vivi não autoriza a reprodução do texto de forma diversa ao que está regulamentado no blog Amálgama.

domingo, 15 de agosto de 2010

Apaixonadamente Clarice



Fechei minha participação na plateia do FIT 2010 com o monólogo apaixonante: Simplesmente eu, Clarice Lispector. Belíssimo. Comovente. Atuação incrível da Beth Goulart na pele de Clarice Lispector e de suas personagens. Figurino e cenário elegantes.

O conto Amor*, do livro Laços de Família, ganhou um toque mágico com a projeção de imagens de árvores do "Jardim Botânico" - da natureza que espanta a personagem Ana que se estranha diante da exuberância da vida.

Depois de muito aplaudida, a atriz agradeceu a energia da plateia, lembrando a todos que teatro é troca. Comentou sobre o mundo sensível de Clarice que pode nos inspirar a nos tornar pessoas melhores.

*Fragmentos do conto Amor no videbloguinho

Cartas de Simone a Nelson Algren

Um recorte do documentário sobre Simone de Beauvoir - filme de Virginie Linhart - que fala das cartas de Simone a seu amante, Nelson Algren - uma outra Simone, uma mulher apaixonada que se sente verdadeiramente mulher. Um momento do percurso da mulher, Simone de Beauvoir, filósofa e escritora que popularizou o aforismo: "Uma mulher não nasce, torna-se mulher." Sartre foi seu companheiro, cúmplice e eles viviam uma relação aberta.

Vídeo: Simone de Beauvoir

OBS.: para acessar o vídeo que fala das cartas, clique no link acima, sob Simone de Beauvoir.

sábado, 14 de agosto de 2010

VEXAME


Alexandre Delforge*
Foto: Miguel Aun.


não
fica o dito pelo não dito
eu grito

o gato não comeu a minha língua

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Viviane Campos Moreira.
Poema inscrito na BPP 6 – Dez/2008.
Evento realizado pelo GOM
Grupo Oficcina Multimédia – BH(MG)

*Queima à lenha - tipo Bizen.
Catálogo cedido por Liege Mendes.

Mais: DISSONÂNCIAS.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Maria Rita Kehl no Mutações

Começou ontem o Mutações: a invenção das crenças , com a participação de José Miguel Wisnik. O ciclo de conferências idealizado por Adauto Novaes traz à Casa Fiat de Cultura, neste ano, vários pensadores para o debate que tem como tema a influência da revolução tecnocientífica nas crenças. Franklin Leopoldo e Silva, Newton Bignotto, Sérgio Paulo Rouanet, Marcelo Coelho, Renato Lessa, Eugênio Bucci e Antônio Cícero estão entre os conferencistas. O ciclo vai até o dia 30 de setembro. A conferência "Crença na palavra, aposta no sujeito" da Maria Rita Kehl será no dia 16 de setembro.

Mais: Casa Fiat

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cartas



Assisti, ontem, à peça “Tudo que eu queria te dizer” na programação do FIT 2010. Um monólogo baseado na obra de Martha Medeiros com Ana Beatriz Nogueira, comemorando 25 anos de carreira – um presente pra nós, espectadores! Ana Beatriz interpreta várias personagens com densidade dramática, cômica, alternando papéis, pulando de uma emoção para outra, às vezes passando de um extremo a outro, em que uma personagem cede lugar para outra.

Mulheres bem diferentes se revezam e falam, por meio de cartas, de seus medos, angústias, manias, fantasias, mágoas, ressentimentos, solidão. Revelam o assombro da paixão e do desejo despertados em algum momento inesperado de suas vidas. Estranham-se com o envelhecer, com o corpo que se torna “enfermo, sem estar doente”. Mulheres comuns partilham seus lutos, dores com um destinatário – um outro real, porque existe, mas imaginário. Um outro que elas conhecem, com quem convivem ou que está com elas ou faz parte da vida delas, mas a quem não dizem tudo. Algo que não foi dito, talvez por não poder ter sido dito, por ser da ordem do não dito, é dito por elas em cartas. Por cada uma delas.

Escapa-nos o que não conhecemos. Não damos conta mesmo de dizer tudo. Sempre nos resta algo não dito.

Para que servem as cartas? Kafka escreveu a sua ao pai. Mariana Alcoforado escreveu cartas de amor lancinantes ao seu amado que partiu seu coração. Cartas... Com declaração de amor, esperançosas, com pedido de desculpas, desesperadas. Cartas que pedem para ser escritas.

Foi assim que Elizabeth (Norah Jones) começou a escrevê-las em Um beijo roubado (filme de Wong Kar Wai), partindo a dor do desamparo. Ela conheceu Jeremy (Jude Law), dono de um café, quando descobriu ter sido traída pelo seu amor. Jeremy a escutava... Um desconhecido que se tornou seu amigo e se apaixonou por ela. Elizabeth não estava pronta para o amor de Jeremy. Preferiu partir e não ficar em um mesmo lugar. Trabalhou como garçonete em cidades pelas quais passava, e do outro lado do balcão - do mesmo lugar de onde Jeremy a escutava -, ela pôde conhecer o outro em seu desamparo. Assim, Elizabeth começa a compreender a dor do desamparo - a sua e a do outro. A mulher do outro lado do balcão não é mais a mesma Elizabeth, que conversava com Jeremy, mas uma outra. Em uma cena, ela diz a um cliente do bar onde trabalhava; um homem perdido em sua história de amor:

“-Algumas coisas ficam melhor no papel.”

Viviane Campos Moreira.
Postado em Balaio da Vivi.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Anestesiados

De acordo com cientistas da Barnard College (EUA), a paralisação dos músculos da face causada pelo Botox "reduz a intensidade da emoção sentida"*. Eles chegaram a esta conclusão depois de uma experiência em que um grupo de voluntários assistiu a cenas com carga emotiva "antes e depois da aplicação de Botox e de outra substância que não paralisa os músculos, a Restylene". Resultado: "os pacientes que tiveram Botox injetado não sentiram as emoções com a mesma intensidade que os demais voluntários."


* * *

Bom, podemos escolher: um corretivo com menos ou mais emoção! Uma escolha simples? Nem tanto.

Como na vida há conquistas e perdas, satisfação e insatisfação e momentos de alegria e de tristeza, talvez tenhamos que esperar da ciência um pouco mais. Uma substância que simultaneamente apague os reflexos do cansaço, desânimo, tristeza, amargura, ressentimento, mas poupe os de felicidade. Uma substância com efeito mais poderoso para as marcas da tristeza e mais brando para as da felicidade.

Em breve, uma substância bipolar?

*Fonte: revista Planeta - Edição 455/Ano 38 - ago/2010.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

+ Flip 2010

Por estas bandas montanhosas de cá, acompanharemos as notícias da Flip pela web. O Todoprosa, blog do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, vai postar notícias de lá. Ano passado, a mesa mais animada e festejada foi a do escritor português Lobo Antunes, mediada por Humberto Werneck. Vamos aguardar...
A propósito, Sérgio Rodrigues comentou sobre a Flip, desde as suas primeiras edições.

Mais: A Flip por Sérgio Rodrigues

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Flip 2010

Inicia-se nesta semana, a partir do dia 4/8, a Flip 2010 que tem como homenageado Gilberto Freyre. Entre os autores brasileiros que comparecerão à Flip, destacam-se: Alberto da Costa e Silva, Beatriz Bracher, Ferreira Gullar, Hermano Vianna, Moacyr Scliar, Patrícia Melo. Entre os autores estrangeiros: Isabel Allende - que participará de debate com mediação de Humberto Werneck - Salman Rushdie, Peter Burke, Robert Crumb, Benjamin Moser - autor da elogiada biografia de Clarice Lispector. Lou Reed cancelou sua participação. Fora da programação principal, Frei Betto será entrevistado por Eliane Brum e Cristóvão Tezza por Luiz Ruffato na programação do Jogo de Ideias.

Veja a programação