quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Poema & corpo

Grupo da Residência 
Sesc Palladium - Belo Horizonte



Desde 8 de setembro estamos na residência do Sesc Palladium, "Desvios para a dispersão: Uma poética da performance", coordenada pelo poeta, artista visual, sonoro, performador e pesquisador mineiro Ricardo Aleixo. 

Uma experiência marcante, para além da palavra escrita. 
O que é o poema?
Onde o poema está? 
O corpo suporta o poema que está em movimento?

PESO, performance intermídia concebida e dirigida por Ricardo Aleixo, com a nossa colaboração. 


Local: foyer do Sesc Palladium - Av. Augusto de Lima, 420, Centro. Belo Horizonte.



Entrada franca, mediante retirada de ingressos 30 minutos antes do início do evento.

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ALINE NOGUEIRA (performadora)
ANGELA QUINTO (performadora)
ESTELA RUFINO (performadora)
GABRIELA PILATI (performadora e preparadora vocal)
GUILHERME TRIELLI (consultor artísitco, performador e músico)
ILNA BAPTISTA (assistente de direção)
JEANNE CALLEGARI (performadora)
MAMUTTE (FELIPE SALDANHA) (performador)
MARINA ALVES (performadora)
NIC OMEDES (performadora)
RICARDO ALEIXO (diretor geral, performador e músico)
THEMBI ROSA (produtora executiva)
VIVIANE MOREIRA (performadora)

domingo, 25 de setembro de 2016

Caranguejos & pedras


Caranguejo Overdrive 


Um corpo de homem debate-se. Joga-se contra o chão. Um corpo de homem bate na lama. Atira-se pra fora da lama. Com fome. Um corpo de homem que anda, mas não sai do lugar. No máximo de lado, esse corpo anda. Movimenta-se sem sair do lugar. Um corpo de homem que se projeta no ar. Com força. Com fome. Exausto, cai e fica no chão. Sem força. Um corpo de homem caído no chão do mangue. Entre nós: um homem e sua agonia. E o olhar de quem tem fome sobre nós.

Cosme, seu nome. Catador de caranguejos. Animais que vivem entocados em galerias subterrâneas. Longevos e territoriais. Caranguejos do mangue: espécie que se alimenta de dejetos orgânicos do mangue. Folhas em decomposição. Dependem da água. Seu território: ambientes aquáticos. Saem na maré baixa pra limpar suas tocas e buscar alimentos. Usam os olhos pra catar folhas. Vivem mais dentro do que fora. Mais acostumados com a profundidade que com a superfície.

Cosme também é do mangue. Sempre viveu nele, cavando buracos. Foi para a Guerra do Paraguai, mas não se adaptou à falta de lama. Para Cosme, "a guerra é branca". Não suportou sua brancura. Não se ajustou à guerra branca. Teve um colapso e voltou pro Rio.

Na volta, no entanto, Cosme não reconhece sua cidade. Não reconhece seu território. O que fizeram com seu território? Com sua cidade? De quem é o Rio de Janeiro hoje? 

Uma paraguaia conta pro Cosme o que aconteceu no Brasil. Uma mulher. Um corpo do território inimigo. Uma estranha. Uma paraguaia que lança sobre nossa política um olhar. Como se nós também precisássemos de seu olhar para reconhecer o nosso território. Como se nós precisássemos de um olhar estrangeiro sobre nós - e justamente de quem? 

Guerra branca. Areia sobre a lama. Mangue embranquecido. Aterrado. Desterritorializados: Cosme, a paraguaia e o caranguejo do mangue.

Enquanto a paraguaia tenta apresentar o caos a Cosme, o corpo de um homem que se perdeu na imagem de um corpo, em uma performance, ganha um outro corpo. O corpo de um homem que deixou de ser corpo porque se tornou imagem transforma-se em corpo. Não de homem, mas de caranguejo. Do mangue. Também conhecido como caranguejo-verdadeiro. Uma imagem de corpo de homem torna-se um corpo de caranguejo protegido por uma carapaça. Assim, um corpo de caranguejo sai da toca. Vem pra superfície. E nos observa. Um caranguejo-verdadeiro observa os homens, parafraseando Drummond.

Corpo de homem. Imagem de corpo. Corpo de caranguejo. Corpo. Carapaça. Pedra. Em Minas, na falta de caranguejos vivos, a produção usou pedras. Fomos convidados a imaginar as pedras movimentando-se como caranguejos. Um exercício e tanto.  

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Aquela Cia de Teatro - Rio de Janeiro
Direção: Marco André Nunes
Texto: Pedro Kosovski

A peça esteve em cartaz em Belo Horizonte nos dias 23 e 24 de setembro de 2016 no Sesc Palladium.

Página de Aquela Cia de Teatro no Facebook: aqui

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Mondrian, bem perto

Piet Mondrian

Exposição com obras de Mondrian que mostram seu percurso até chegar às cores primárias (vermelho, azul e amarelo) com as quais passou a trabalhar. Além de suas obras, há também as de outros artistas do Movimento de Stijl. Uma exposição que possibilita muitos olhares e reflexões.

Será que temos inventado no nosso dia a dia o tempo para a obra? A parada no cotidiano para poder estar com a obra? Para poder estar com o outro em um quadro?

Será que temos acolhido o tempo da obra? O tempo que levamos para casa para estar novamente com a obra?

Será que temos prestado atenção no percurso do outro e no nosso? No percurso do artista até ele chegar àquele quadro que o consagrou? Como ele se tornou o artista daquelas cores? Como ele começou seu percurso? A partir de quê? Quais eram os interesses dele, em termos de pesquisa? O que ele foi experimentando? 

Será que temos prestado atenção na história da vida do outro e na nossa?  Na vida do artista? Ele veio de que família? Como era sua família? Que ordem ele precisou transgredir para se tornar artista? Quais foram suas estratégias?

Será que nosso olhar de espectadores tem prestado atenção nas fases de quem hoje somos? Nas fases do artista? Com o que ele rompeu na sua arte para que ela pudesse se tornar cada vez mais a arte dele? O que era dele, mas ele deixou para trás?

Será que nossos olhos e ouvidos de espectadores têm prestado atenção na nossa linguagem? Na linguagem do artista? O que Mondrian foi pondo na sua obra em termos de linguagem? Ele pôs música nos seus quadros? Ele pôs o silêncio? Como? Onde?

Será que temos prestado atenção no outro que não é artista? E, embora não seja, tem também um percurso? Uma história? Quem sabe esse outro, apesar de não ser artista, possui uma narrativa transgressiva? Reconhecemos no percurso do outro a transgressão? Respeitamos sua narrativa transgressiva?

Será que temos dado conta de olhar mais para a gente mesma do que para o outro? Será que temos dado conta de rever o que temos experimentado na vida, em termos de invenção e de transgressão? Será que temos dado conta de assumir uma narrativa transgressiva? Em nome de quê?

Uma exposição inteligente, bela e interessante. Pode suscitar muitas outras reflexões para além da sua beleza.

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Obras procedentes (a maior parte) do Museu Municipal de Haia - Holanda.
Curadoria de Pieter Tjabbes, Benno Tempel e Hans Janssen.
No Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB.
Em Belo Horizonte, até 26/9/2016
Entrada franca.

Mais: aqui

:)

sábado, 3 de setembro de 2016