quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

VEXAME



não
fica o dito 
pelo não dito

eu grito

o gato não 
comeu 
a minha língua

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Viviane C. Moreira 
série AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A verdade em algum lugar

Foto: Danielle Oliveira


Em verdade, todos temos pelo menos uma verdade para contar.
Em verdade, acostumamos a não contar nem pelo menos uma verdade.
Em verdade, fazemos de tudo para não contar, de forma alguma, essa verdade.
Em verdade, corremos atrás do impossível para silenciá-la.
Em verdade, enlouquecemos para apagar a verdade de nós mesmos.
Em verdade, o hospício está cheio de verdades.
Em verdade, em algum lugar, ainda assim a verdade se tece e se faz presente.

Em verdade vos digo nos desafia a escutar verdades.
Mais do que escutar, nos propõe um jogo com verdades.
Podemos estar entre verdades nesse jogo.
Entre verdades escondidas. 
Entre verdades inventadas. 
Entre verdades proibidas. 
Entre verdades vividas, sobretudo quando estamos na pele de um outro. 

Somos avisados: "o espetáculo já começou". 
O jogo já começou.
Quem vai contar uma verdade, aquela, primeiro?

Personagens que existem em todas as cidades do mundo. 
Pessoas invisíveis. 
Gente que experimenta no próprio corpo a vida dura das verdades detrás da face do outro. 
Gente da vida. 
Homens e mulheres da vida. 

Corpos marcados pela vida. 
Corpos que não escolhem como querem ser marcados pela vida. 
Corpos em que a vida deixa suas marcas mais profundas.
Corpos. Mercadorias. Peças de um jogo.

E quem pode afirmar que não está no jogo que transforma corpos em mercadorias?

O teatro?

*

Em verdade vos digo: com André Luiz Dias, Luciene Lemos, Amanda Chaves e Cristal Lisboa.
Direção: André Luiz Dias.
Dramaturgia: André Luiz Dias e Anderson Feliciano.
Produção: Instituto Cultural In-cena.
Grupo In-cena de Teatro. (Teófilo Otoni - MG)

A peça esteve em cartaz nas terças, quartas e quintas-feiras no período de 31/1/17 a 16/2/17 no Sesc Palladium em Belo Horizonte.

Em verdade vos digo integrou a 43a. Campanha de Popularização de Teatro e Dança.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Pussies na rua



E, finalmente, 2017 começou com um desfile de pussies rosas, vermelhas, marrons, pretas, amarelas, brancas, laranjas, roxas, violetas, cinzas, azuis nas cabeças de mulheres, homens, crianças e idosos nas ruas de Washington. Desfile que se espalhou para outras cidades dos Estados Unidos e do mundo.

Pussy é uma palavra versátil que pode significar uma coisa e outra sem que haja, entre seus significados, um muro. Pussy pode ser gatinha e também vagina. E a palavra simbolizada pela imagem de gatinha nos gorros remete ao seu outro significado


Em resposta a posturas inadequadas no tempo e no espaço do Presidente Donald Trump, durante a campanha, centenas de milhares de mulheres foram para as ruas de Washington exibindo, nas suas cabeças pensantes, falantes e criativas, o lugar da feminilidade hoje na sociedade norte-americana.


O gorro de gatinha foi usado como artifício para dizer o que pode ser dito da feminilidade hoje pelas próprias mulheres que brincaram com a palavra pussy. O chapeuzinho de pussy afirma o que a palavra significa. Mas por que a vagina?


Ainda hoje, no imaginário de homens e mulheres, a inferioridade feminina pode estar associada à falta do órgão, no corpo da mulher, que representa o falo. Culturalmente, a “natureza feminina” decorrente do corpo da mulher despossuído de virilidade foi apropriada pelos homens na construção da feminilidade. Nestdeterminou-se um lugar bem marcado, socialmente, para as mulheres: a família e o lar, como diz Maria Rita Kehl em Deslocamentos do feminino. Esse lugar marcado serviu para afirmar a ordem burguesa: famílias nucleares, com as mulheres no lar. Contudo, nem todas as mulheres, sobretudo no séc. XIX, ajustaram-se à fixidez desse lugar e, ainda que tenham tentado, não se adaptaram ao padrão burgs de feminilidade.


Essas mulheres, pela sua rebeldia, possibilitaram a Freud escutar a insatisfação delas com a feminilidade da época. Assim, a psicanálise foi criada em um contexto histórico de declínio da família patriarcal, como diz Elisabeth Roudinesco (Medicina, psiquiatria e psicanálise – semiologia do sujeito no livro Em defesa da psicanálise - ensaios e entrevistas). “Freud, tributário de uma visão política da histeria, atribuiu-lhe valor emancipador, assimilando-a a uma revolta impotente das mulheres entravadas em sua sexualidade”. A revolta dessas mulheres, no entanto, possibilitou que novos arranjos de família surgissem tempos depois a partir de invenções de outras mulheres.

Maria Rita Kehl aponta a insatisfação da personagem Emma Bovary (Flaubert) com feminilidade da sua época. Ainda que Emma desejasse se tornar outra mulher, ela não poderia, por causa da sua limitação na linguagem. Ela ficou restrita ao mundo de linguagem do outro que não deixa de ser um mundo de linguagem pronto - um muro concreto. Não conseguiu inventar o próprio discurso, ficando presa no discurso do outro e na posição de objeto do desejo do outro. Quem sou? Esta pergunta, Emma não conseguiu responder, ainda que tenha sido esposa, mãe e amante de outros homens. A transgressão possível para Emma foi se transformar em uma consumidora sem limite. “A mulherzinha de Flaubert”, como provoca Maria Rita, foi falada pelo outro. Não alcançou o falo da fala.


As mulheres da Marcha de 21 de janeiro de 2017 não precisam mais reivindicar o falo da fala, como as do séc. XIX. Precisam, todavia, defender a sua posse. Foram para rua defender direitos já conquistados e com amorhumor usaram o falo da fala. O chapéu de pussy enfeitou a cabeça de quem hoje sabe brincar com o falo da fala. E se a vagina no séc. XXI, em imaginários de gosto duvidoso, ainda persiste associada à inferioridade feminina, por que as pussies brincalhonas ficariam escondidinhas em casa?  

Nessa marcha, as mulheres de Washington não estão sozinhas e mais coloridos estão seus discursos.  


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Viviane C. Moreira
Postado em  balaiodavivi.blogspot

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Sobre a multiplicidade de discursos feministas na atualidade - ensaio de Carla Rodrigues na Serrote:  aqui 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Bem-vindo, 2017

Foto: Frederico Samarane


Menos amor e paz 
e mais vontade de amar
em qualquer idade.

Mais corpo-corpo
no lugar do corpo
em todas as idades.

Mais tempo e mais espaço
pra vida que se reinventa 
cedo ou tarde.

Pés fortes, coração leve
e asas soltas
em múltiplos lugares.

Um ano novo com saúde e muitas alegrias!

*

Obrigada a todos que enfeitaram  a minha vida com beleza, inteligência e alegria em 2016 - a lista de nomes não é pequena.

Obrigada aos queridos colaboradores do AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS: Alex, Alexandre, Aninha, Bruno, Cláudio, Daniel, Eduardo, Elias, Fernanda, Fernando, João, Luska, Marina, Rae, Sabiá, Vânia.

Obrigada Acácia Azevedo e Ma Ferreira pelas imagens das peças de cerâmica que enfeitam nossos poemas.

Obrigada aos queridos leitores, seguidores e interlocutores do Balaio da Vivi, do videbloguinho, do AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS e do Facebook.

Obrigada a Daniel Lopes, editor do Amálgama.

Obrigada a Antonio Ozai, editor do Blog da REA.

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As postagens no Balaio da Vivi e no videbloguinho serão retomadas em fevereiro.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Boas Festas

Rafael

que 
em algum 
lugar 
dentro fora
longe 
perto
fora dentro
perto 
longe
pisque e 
pisque
sem cansar
a luzinha 
do renascimento
em cada 
um

*

a todos, um Natal 
saboroso.