sexta-feira, 4 de maio de 2018

Corpos à espera


Tuca Andrada e Denise Fraga

Uma cidade anima-se quando o trem passa. Güllen e seus cidadãos endividados aguardam a visita de uma velha senhora. Claire Zahanassian (Denise Fraga) nasceu e cresceu em Güllen e, muito moça, teve que deixar a cidade. Precisou prostituir-se. E para deixar a vida, casou-se com um milionário, depois com outro e depois com o terceiro, o quarto, o quinto... Colecionou nomes de donos de fortunas ao longo da vida.

Clara, como os cidadãos de Güllen a chamavam, retorna disposta a salvar a cidade que já lhe pertencia - era dona de quase tudo em Güllen. No entanto, queria mais: justiça. Para ajudar a cidade, exigiu que matassem um de seus cidadãos: Alfred Krank (Tuca Andrada), o homem que a abandonou grávida. Assim, Clara faz valer o seu dinheiro.

Os cidadãos recusam sua proposta, mas a milionária espera. Instala-se em Güllen por um tempo, com todas as suas excentricidades que modificam a paisagem e a vida da cidade. E avisa: "Sou difícil de morrer, sobrevivi a vários acidentes". Talvez a um, Clara não tenha sobrevivido: à história de amor com Alfred.

Quando se reencontram, Clara relembra o que viveram em vários cantos da cidade com a riqueza das cores do seu romance. Ela sabe que suas cores nada podem fazer por Alfred, um homem empalidecido pela vida sem sentido. Quando Clara entrega uma cor a Alfred, ele não está ali, talvez nunca tenha estado. As cores todas são dela. Contudo, por que a fome de justiça?

Há camadas de Clara nesse corpo amado. Há a visita do ser que passou pelo seu corpo de mulher nessa história de amor. A possibilidade de ser perdida para sempre, quando moça, foi cultuada por Clara. O corpo desse homem não estava nas prateleiras da sua coleção. Seria possível a Alfred, ampliar as fronteiras do próprio corpo? 

Quanto aos cidadãos de Güllen, seriam capazes de inventar outros corpos?

Um dos cidadãos, revoltado com a condição imposta por Clara, a compara com Medeia, mas a velha senhora não queria vingança, queria justiça, a sua, e podia pagar por ela. Todavia, sua justiça não questiona o destino. "O mundo fez de mim uma puta, agora faço do mundo um puteiro."

O que o dinheiro não compra? Esta é uma pergunta que Claire Zahanassian parece fazer a cada um dos cidadãos de Güllen, sabendo há muito tempo a resposta. Talvez a velha senhora também nos pergunte em nossas Güllens que se animam quando o trem passa, mas nunca sabem quando o trem para. Ou sabem?



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Texto de Friedrich Dürrenmatt.
Tradução: Christine Röhrig.
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala.
Direção: Luiz Villaça.
Com Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino.
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich.
No Sesiminas, em Belo Horizonte, de 26/4/18 a 29/4/18.

(*Falas citadas não literais)

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