segunda-feira, 16 de maio de 2016

Que imaginário é esse?

Richard Silvaggio

 
Lendo A família em Desordem de Elisabeth Roudinesco me flagrei revendo outros episódios, a partir de um, narrado por ela, com o rei Luís XV. Em 5 de janeiro de 1757, um homem da classe dos criados “tocou” com a lâmina de um canivete o corpo do rei para, com esse gesto, chamá-lo à razão. Damiens não queria matar o rei, mas lhe dar um toque.

No imaginário do agressor, o corpo político de Luís XV estava em perigo. A cabeça do rei estava ameaçada pela influência do feminino. O rei que se dedicava à paixão pelas mulheres, a uma especialmente, Madame de Pompadour, estava pondo o reino em perigo. A França poderia ser governada por uma mulher. Pelo outro. Pelo feminino. Pelo outro corpo. Pelo corpo do outro. Pelo corpo da mulher. Pelo corpo associado à paixão. Pelo feminino associado à desordem. Assim, o corpo do rei, o masculino que representava a razão, tinha que estar protegido do corpo que simbolizava o lugar de todos os perigos. O rei precisava voltar à razão para salvaguardar seu corpo político e a soberania do reino.

Um outro episódio, em 1992, fala do imaginário de uma sociedade. Segundo Marilyn Yalom (A história da esposa – da Virgem Maria a Madonna), os norte-americanos não estavam prontos para Hillary Clinton. Ela não encarnava o papel de esposa perfeita, como as anteriores, Nancy Reagan e Barbara Bush.

Advogada, atuante politicamente e não submissa ao marido, os americanos se sentiram ameaçados por essa esposa “bem-educada, confiante e ambiciosa” e, quando o plano de saúde defendido por ela foi derrotado, se sentiram vingados. Hillary teria mudado estratégias, táticas e o penteado durante o primeiro mandato de Clinton, mas ainda que se esforçasse para conquistar a simpatia dos americanos, muitos não deixaram de demonstrar sua repulsa, até a traição de Bill.

Hillary, então, tornou-se uma mulher traída. E por ter permanecido ao lado do marido, suportando todos os detalhes da traição bastante explorada, sua popularidade subiu e ela se tornou uma esposa com quem as americanas puderam se identificar. Hillary já possuía um corpo político, mas não era aceita pelos americanos.

Outro episódio poderia ser objeto de estudo - tomara que seja. Diz respeito ao contexto* do impedimento da Presidenta Dilma. Como bem disse Carla Rodrigues, Dilma caiu por ser “mulher, guerrilheira e honesta”.

Dilma não nasceu Dilma. Ela inventou a Dilma, esse nome que nomeia um outro corpo, que já existia antes de ela ser eleita e reeleita. Dilma se tornou Dilma à medida que construía esse outro corpo. Ela se deu esse outro corpo. Um corpo vilipendiado pelo poder do regime de exceção e marcado pela crueldade dos homens que agiam nos porões da ditadura, como se diz.

Nas garras de seus torturadores e sob suas faces sinistras, ela continuou construindo a Dilma. Essa outra. E também seu corpo. Nesse momento, resistir à tortura, marcando para sempre seu corpo, era uma forma de prosseguir na construção do seu corpo político. Dilma assim o fez e também marcou seu corpo de mulher honesta - corpo que ela também se deu. Mas o significado de mulher honesta não é honesto.

Mulher honesta é uma invenção dos homens para dar às mulheres um papel: o do dever de fidelidade. Às mulheres, o dever de fidelidade. Aos homens, o direito à infidelidade. Mulher honesta é a que não trai seu dever de fidelidade. Pode ser traída, mas não pode trair seu dever. E tem um lugar fixo: não pode subverter uma ordem estabelecida que mantém o sexo feminino preso à família. A mulher honesta é propriedade do marido na organização social do patriarcado.

Já a mulher que trai seu dever de fidelidade torna-se indesejada. Constatar, no entanto, que a indesejada pode ser apenas uma mulher que não cumpriu o papel desejado numa ordem perversa, por exemplo, isso não modifica nada. Nós, mulheres, não inventamos a mulher honesta. Nem o seu lugar. Como reconhecer seu corpo? Por isso esse corpo para existir depende de uma construção da própria mulher.

Contudo, merece mais atenção a antipatia dos brasileiros pela Dilma. Todos os corpos da Presidenta foram negados. Tanto seu corpo político, como seu corpo de mulher e sobretudo seu corpo de mulher honesta. Todos foram rejeitados. E seu corpo de mãe, seu corpo de avó e seu corpo de filha, ignorados. Dilma também é filha, mãe e avó. Ela vem de uma família mineira de classe média alta. Tem uma filha que se tornou juíza. Mãe e filha construíram carreiras bem-sucedidas. Então, ela foi também uma boa mãe, mas não usou isso na vida pública. Chegou ao Planalto com seu corpo político, seu corpo de mulher e seu corpo de mulher honesta sem usar a maternidade para conquistar a simpatia das brasileiras. Uma brasileira que se deu outros corpos, inclusive o da mulher honesta, foi eleita e reeleita Presidente da República.

Mas não foi possível suportar esse corpo no Planalto. O corpo que passou a existir na política, a partir da construção de uma mulher que chegou ao centro do poder, sem homem. Talvez seja importante prestar atenção no corpo para o qual as brasileiras deram tchau.



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*O contexto: um recorte do episódio do impedimento da Presidenta Dilma, a partir de um ponto de vista baseado no comportamento dos brasileiros e das brasileiras.

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Viviane C. Moreira 

2 comentários:

  1. Belo texto.
    Tenho uma filha de 10 anos que presencia a onda de insultos e palavras de toda sorte dirigidas à Presidente da República. Ela é caixa de ressonância e as repete. Isso me incomoda muito, apesar de não ser partidário da Presidente e discordar de sua conduta em alguns aspectos. Busco orientar minha filha a pensar em primeiro lugar no respeito que devemos a essa mulher. Pode não ter feito as melhores escolhas? Sim. Errou? Sim.
    Mas devemos respeitá-la pela trajetória e principalmente pela saga que é ser mulher.
    Acho que minha filha deve, desde cedo, aprender a respeitar uma semelhante, mesmo que o mundo em volta continue atirando pedras. É passo à frente para o progresso dela própria.
    O penúltimo parágrafo de seu texto é precioso! Traduz na íntegra a ideia que tento passar para a minha pequena.
    Por mais que se publique de tudo, se divulgue de tudo, que disparem todas as saraivadas possíveis, não se deve seguir o pensamento de manada.
    Deve-se enxergar nas entrelinhas.

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  2. muito legal tudo o que vc disse, Alexandre. muito bacana qdo os pais ensinam os filhos a ver além...
    acho que esta é uma forma prazerosa para introduzir o pensar, o saber pensar, que tbm se constrói, não é?
    obrigada pelo seu comentário. obrigada por vc ter trazido suas reflexões, a partir tbm da sua experiência como pai.
    um abraço.

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